INTRODUÇÃO

"Sé amável no ouvir,

bondoso no julgar."

Shakespeare

DESDE QUE surgiu na Inglaterra a literatura teosófica, adotou-se o

costume de dar aos seus ensinamentos o nome de "Budismo Esotérico". E, uma

vez adquirido o hábito, sucede o que diz um velho provérbio baseado na experiência

de todos os dias: "O erro desce por um plano inclinado, ao passo que a verdade tem

que subir penosamente a escarpa da colina.",

Os antigos aforismos são, com freqüência, os mais sábios.

É quase

impossível à mente humana o livrar-se inteiramente dos preconceitos ou o evitar a

formação de juízos definitivos antes que um assunto seja examinado, por completo,

em todas as suas facetas.

Disso adveio o erro corrente que, de um lado, restringe a

Teosofia ao Budismo e, de outro, confunde os princípios da filosofia religiosa

predicada por Gautama, o Buddha, com as doutrinas expostas em largos traços do

livro Esoteric Buddhism de A. P. Sinnett.

Difícil imaginar um erro maior.

Ele deu

aos nossos adversários urna arma eficaz contra a Teosofia, porque, como observou

com justa razão um eminente sábio páli, naquela obra não havia "nem Esoterismo,

nem Budismo". As verdades apresentadas no livro do Sr. Sinnett deixavam de ser

esotéricas a partir do momento em que eram entregues ao público; e não era a

religião de Buddha o que ali se divulgava, mas tão somente alguns dados de

ensinamentos até então ocultos, dados que ora nos propomos desenvolver e

complementar com muitos outros, nos presentes volumes.

Estes últimos, ainda

assim, apesar de trazerem à luz muitos pontos fundamentais da DOUTRINA SECRETA do Oriente, não fazem mais que levantar uma nesga do denso véu que

os envolve.

Porque a ninguém, nem mesmo ao mais graduado de todos os Adeptos

vivos, seria permitido lançar aos azares de um mundo incrédulo e zombeteiro aquilo

que tão zelosamente há sido preservado durante séculos e idades sem conta.

Esoteric Buddhism é uma obra excelente, com um título pouco feliz,

embora de sentido idêntico ao do presente trabalho: A DOUTRINA SECRETA.

Se o

considero infeliz, é porque geralmente as coisas são julgadas mais pela aparência

do que pelo seu conteúdo real; e ainda porque o erro se tornou de tal modo

universal que dele foram vítimas inúmeros membros da própria Sociedade

Teosófica.

Verdade é que, desde o princípio, alguns Brâmanes e outras pessoas

protestaram contra o título; e, à guisa de justificativa, eu mesma devo acrescentar

que o manuscrito me foi mostrado em forma já acabada, sem que me fosse

declinado o título que iria receber, nem muito menos a maneira pela qual o autor se

propunha grafar a palavra "Budh-ism".

A responsabilidade pelo erro cabe àqueles que, tendo sido os primeiros a

chamar a atenção pública para os assuntos dessa, ordem, não se lembraram de

advertir que há uma diferença entre "Buddhism", sistema moral e religioso fundado

por Gautama Buddha - - título este que significa "o Iluminado" — e "Buddhism", de

Budha, "Sabedoria ou Conhecimento (Vidya)", palavra derivada da raiz sânscrita

Budh, conhecer.

Os teósofos da índia somos os verdadeiros culpados, embora

depois tivéssemos feito todo o possível para corrigir o erro90. Era, aliás, fácil elidir a

confusão: bastaria retificar a grafia da palavra, escrevendo-a com um só d e

observando que "Buddhism", religião, devia antes revestir a forma e pronunciar-se

"Buddhaism".

Veja-se The Theosophist de junho de

Tal esclarecimento se faz de todo indispensável no início de uma obra

como esta.

A "Religião-Sabedoria" é a herança comum de todas as nações do

mundo, em que pese à afirmação que figura no Esoteric Buddhism91 de que "até

dois anos antes (ou seja, até 1883) nem o autor nem qualquer outro europeu vivo

conheciam o alfabeto da Ciência, aqui apresentada pela primeira vez em termos

científicos" etc.

Este equívoco deve ser levado à conta de inadvertência.

A que

escreve as presentes linhas conhecia tudo quanto se "divulgou" no Esoteric

Buddhism, e muitas coisas mais, vários anos antes de ter recebido a incumbência

(no ano de 1880) de transmitir uma pequena parcela da DOUTRINA SECRETA a

dois europeus, um dos quais foi precisamente o autor daquele livro; e a esta

escritora não se pode, certamente, negar o privilégio - ainda que algo equívoco para

ela - de haver nascido na Europa e ter-se aqui educado.

Além disso, boa parte da

filosofia exposta pelo Sr. Sinnett foi ensinada na América, ainda antes da publicação

de Ísis sem Véu, a outros dois europeus e ao meu colega Coronel H. S. Olcott.

Dos

três mestres deste último, o primeiro foi um Iniciado húngaro, o segundo egípcio e o

terceiro hindu.

Por especial permissão, o Coronel Olcott divulgou alguns desses

ensinamentos, de várias maneiras; e só o não fizeram os outros porque não tiveram

autorização para tal, uma vez que ainda não havia chegado a hora de se dedicarem

à atividade externa.

Essa hora, porém, chegou para alguns, sendo uma prova

tangível disso os interessantes livros do Sr. Sinnett.

Cumpre deixar bem claro que

nenhuma obra teosófica sobe de valor ou adquire importância especial em razão de

qualquer parcela de autoridade que o seu autor porventura invoque.

Adi ou Âdhi Budha, ó Uno, ou a Primeira e Suprema Sabedoria, é um

termo usado por Âryâsanga em seus tratados secretos, e também atualmente por

Prefácio da edição original.

todos os místicos budistas do Norte.

É uma palavra sânscrita, e uma denominação

dada pelos primitivos Arianos à Divindade desconhecida; não .se encontra a palavra

"Brahmâ" nem nos Vedas nem nas escrituras anteriores.

Significa a Sabedoria

Absoluta, e Fitzedward Hall traduz Âdhi-bhûta com a "causa primordial incriada de

todas as coisas". Evos e evos devem ter-se passado antes que o epíteto de Buddha

viesse, por assim dizer, a ser humanizado, aplicando-se aos mortais, e apropriado

finalmente ao indivíduo cujas virtudes e sabedoria incomparáveis o tornassem digno

do título de "Buddha da Sabedoria Imutável". Bodha significa a posse inata da

inteligência ou entendimento divino; Buddha, a sua aquisição pelos esforços e

méritos pessoais; e Buddhi é a faculdade de conhecer, o canal por onde o

conhecimento divino flui até o Ego, o discernimento do bem e do mal, e também a

consciência divina, e a alma espiritual, que é o veículo de Âtmâ.

"Quando Buddhi

absorve (destrói) o nosso Egotismo com todos os seus Vikâras92, Avalokieteshvara

se manifesta em nós, e o Nirvana ou Mukti é alcançado"; Mukti é o mesmo que

Nirvana: a libertação dos laços de Maya ou ilusão.

Bodhi é igualmente o nome de

um estado particular de êxtase, chamado Samâdhi, durante o qual o indivíduo atinge

o ápice do conhecimento espiritual.

Ignorantes os que, por ódio ao Buddhismo e, por via reflexa, ao

Buddhismo — ódio cego e intempestivo nos dias de hoje —, negam os seus

ensinamentos esotéricos, que são também os dos Brâmanes, simplesmente porque

o nome está associado a princípios e doutrinas que para eles, como monoteístas,

são perniciosos.

Ignorantes — é bem o termo que lhes cabe, pois só a Filosofia

Esotérica é capaz de resistir, nesta época de materialismo crasso e ilógico, aos

repetidos ataques a tudo quanto o homem tem de mais caro e sagrado em sua vida

Transformações, modificações.

espiritual interna.

O verdadeiro filósofo, o estudante da Sabedoria Esotérica, perde

inteiramente de vista as personalidades, as crenças dogmáticas e as religiões

particulares.

Além disso, a Filosofia Esotérica concilia todas as religiões, despe-as

de suas vestimentas humanas exteriores e demonstra que a raiz de cada uma delas

é a mesma de todas as demais religiões.

A Filosofia Esotérica prova a necessidade

de um Princípio Divino e Absoluto na Natureza.

Ela não nega a Divindade, como não

nega o Sol, e jamais deixou de reconhecer a "Deus na Natureza", nem a Divindade

como Eus absoluto e abstrato.

Recusa-se unicamente a aceitar os Deuses das

chamadas religiões monoteístas, criados pelo homem à sua imagem e semelhança,

tristes e ímpias caricaturas do Eterno Incognoscível.

Por outro lado, a documentação

que vamos pôr ante os olhos do leitor abrange as doutrinas esotéricas do mundo

inteiro, desde os primórdios da humanidade; e nela o ocultismo budista ocupa o

lugar que lhe corresponde -- nada mais.

Em verdade, os pontos secretos do Dan ou

Jan-na (Dhyârta)93 da metafísica de Gautama, por mais amplos que pareçam aos

que desconhecem os princípios da Religião-Sabedoria, não representam senão uma

parcela mínima do todo.

O Reformador indiano confinou seus ensinamentos ao

aspecto puramente moral e fisiológico da Religião-Sabedoria, ao homem e à ética

simplesmente.

Das coisas "invisíveis e incorpóreas", do mistério do Ser fora de

nossa esfera terrestre, não se ocupou o grande Instrutor em seus ensinamentos

públicos: as verdades ocultas eram reservadas para um círculo seleto de seus

Arhats.

Estes últimos recebiam a iniciação na famosa Gruta Saptaparna (a

Sattapanni de Mahâvansa), perto do Monte Baibhâr (o Webhâra dos manuscritos

Dan (Ch'an na moderna fonética chinesa e tibetana) é o nome genérico das escolas esotéricas e de sua literatura.

Nos livros antigos, a palavra Janna é definida como "reforma do indivíduo por meio da meditação e       do    conhecimento", um segundo nascimento interno.

Donde Dzan, Djan foneticamente, o Livro de Dzyan.

Veja-se Edkins, Chinese Buddhism, pág.

129, nota.

pális). A gruta ficava em Râjâgriha, a antiga capital de Magadha, e era a gruta de Fa-

hian, tal como supõem alguns arqueólogos94.

O tempo e a imaginação humana não tardaram em alterar a pureza e a

filosofia desses ensinamentos quando foram transplantados do círculo secreto e

sagrado dos Arhats, no curso de sua obra de proselitismo, para um solo menos

preparado que o da índia para as concepções metafísicas - ou seja, assim que foram

levados para a Birmânia, o Sião, a China e o Japão.

Pode-se ver quanto sofreu a

pureza original daquelas importantes revelações estudando alguns dos chamados

sistemas budistas "esotéricos" da antigüidade em seu aspecto moderno, não só na

China como em outros países budistas em geral, inclusive em não poucas escolas

do Tibete, abandonadas ao cuidado de Lamas não iniciados e de inovadores

mongóis.

Chamamos a atenção do leitor para a grande diferença que existe entre o

Budismo ortodoxo, ou seja, os ensinamentos públicos de Gautama o Buddha, e o

seu Budismo esotérico.

Sua Doutrina Secreta, contudo, em nada diferia da dos

Brâmanes iniciados do seu tempo.

O Buddha era filho da terra ariana, um hindu de

nascimento, um Kshatrya, discípulo dos "nascidos duas vezes" (os brâmanes

iniciados) ou Dvijas.

Os ensinamentos do primeiro não podiam, pois, ser diferentes

da doutrina destes últimos, já que toda a reforma budista consistiu em revelar uma

parte do que havia permanecido secreto para todos aqueles que estavam fora do

"círculo encantado" dos ascetas e dos iniciados do Templo.

Impedido, por força de

seu juramento, de ensinar tudo quanto lhe havia sido comunicado, e embora

anunciasse uma filosofia formada com a tessitura da verdadeira ciência esotérica,

Buddha não apresentou ao mundo senão o corpo material e externo dessa filosofia,

Beglor, engenheiro-chefe em Buddha Gâya, e arqueólogo eminente, foi, segundo cremos, o primeiro a fazer essa descoberta.

reservando a alma para os seus eleitos.

Vários sinólogos ouviram falar da "doutrina

da alma", mas nenhum parece haver compreendido sua verdadeira significação e

importância.

Essa doutrina foi conservada em segredo dentro do santuário — talvez

em excessivo segredo.

O mistério que envolvia seu dogma principal e seu objetivo

supremo, o Nirvana, aguçou e irritou a tal ponto a curiosidade dos sábios que o têm

estudado, que, não sendo capazes de resolvê-lo de maneira lógica e satisfatória,

desatando o nó Górdio, preferiram cortá-lo, declarando que o Nirvana significa o

aniquilamento absoluto.

Ao findar o primeiro quartel deste século, apareceu no mundo uma classe

especial de literatura, cujas tendências se foram acentuando mais nitidamente de

ano em ano.

E, alegando basear-se em investigações eruditas de sanscritistas e

orientalistas em geral, chegou a assumir foros de científica.

Religiões, mitos e

emblemas da Índia, do Egito e de outras nações antigas foram interpretadas

segundo o entendimento que aos simbologistas lhes aprouve dar; a sua forma

grosseira e exterior passou muitas vezes a exprimir o seu sentido interno.

Apareceram em rápida sucessão obras notáveis por suas especulações e deduções

engenhosas formadas em círculo vicioso, por apresentarem conclusões geralmente

preconcebidas, em vez de premissas, nos silogismos de vários sábios em sânscrito

e em páli; e assim inundaram as bibliotecas com dissertações muito mais sobre o

culto fálico e sexual que sobre o verdadeiro simbolismo, e contradizendo-se umas

com as outras.

Essa é, talvez, a razão por que se permite que hoje venham à luz, após

milênios de silêncio e do mais profundo segredo, os lineamentos de algumas

verdades fundamentais da Doutrina Secreta das Idades Arcaicas.

Menciono de

propósito "algumas verdades", pois o que ainda deve permanecer em silêncio não

caberia em uma centena de volumes como este, nem pode ser comunicado à

presente geração de saduceus.

Mas o pouco que agora se divulga é ainda preferível

ao silêncio total acerca dessas verdades vitais.

O mundo atual, em sua desabalada

corrida para o desconhecido — que o físico tanto se apressa em confundir com o

incognoscível, sempre que o problema lhe escapa à compreensão — progride

rapidamente em direção oposta à espiritualidade.

O mundo converteu-se hoje em

uma vasta arena, em um verdadeiro vale de discórdia e de luta sem fim, em uma

necrópole onde são sepultadas as mais elevadas e santas aspirações de nossa

alma espiritual.

Esta alma se atrofia e paralisa, cada vez mais, em cada geração

nova.

Os "amáveis infiéis e consumados libertinos" da sociedade de que fala

Greeley muito pouco se interessam pelo renascimento das ciências mortas do

passado; mas existe uma nobre minoria de estudantes sérios e entusiastas que

merecem aprender as poucas verdades que hoje lhes podem ser oferecidas; e agora

muito mais que há dez anos, quando surgiu a obra Ísis sem Véu ou vieram a público

as últimas tentativas para explicar os mistérios da ciência esotérica.

Uma das maiores e provavelmente a mais importante das objeções contra

a veracidade do presente livro, e a confiança que deva inspirar, manifestar-se-á no

que se refere às Estâncias preliminares.

Como comprovar as declarações nelas

contidas? Em verdade, se grande parte das obras sânscritas, chinesas e mongóis,

citadas nestes volumes, são conhecidas de alguns orientalistas, a obra principal,

aquela da qual foram recolhidas as Estâncias, não figura em nenhuma das

bibliotecas européias.

O LIVRO DE DZYAN (ou DZAN) é completamente ignorado

dos nossos filólogos, ou pelo menos jamais ouviram falar dele sob aquele nome.

Eis,

sem dúvida, um grave obstáculo para todos os que seguem os métodos de

investigação prescritos pela ciência oficial.

Para os estudantes de Ocultismo, porém,

e para todo verdadeiro Ocultista, isso não terá maior importância.

O corpo principal

das doutrinas expostas se encontra disseminado em centenas e até milhares de

manuscritos sânscritos, alguns já traduzidos, e, como de costume, desfigurados em

sua significação, outros à espera de que lhes chegue a vez.

Todo homem de ciência

tem, portanto, oportunidade para verificar os assertos e a maior parte das citações

que se fazem.

Alguns fatos novos há (novos unicamente para o orientalista profano),

assim como certas passagens dos Comentários, cuja fonte será difícil identificar.

Vários ensinamentos, além disso, só foram até agora objeto de transmissão oral; em

todo caso, porém, existem referências a eles nos volumes quase inumeráveis da

literatura dos templos bramânicos, chineses e tibetanos.

De qualquer modo, e seja qual for a sorte reservada à autora por parte da

crítica malévola, há pelo menos uma coisa que não pode ser posta em dúvida.

Os

membros de várias escolas esotéricas, cujo centro está situado além dos Himalaias

e de que se podem encontrar ramificações na China, no Japão, no Tibete e até

mesmo na Síria, como também na América do Sul, afirmam que têm em seu poder a

soma total das obras sagradas e filosóficas, manuscritas ou impressas, enfim, todas

as obras que têm sido escritas, nas diversas línguas ou caracteres, desde os

hieróglifos ideográficos até o alfabeto de Cadmo e o Devanâgari.

Dizem e repetem constantemente que, a partir da destruição da biblioteca

de Alexandria95, todas as obras que podiam levar ao conhecimento da Ciência

Secreta hão sido objeto de cuidadosas buscas, graças aos esforços combinados dos

membros daquela Fraternidade.

E os entendidos acrescentam que, uma vez

descobertas, essas obras foram destruídas, com exceção de três exemplares de

Veja-se Ísis sem Véu, vol.

II.

cada uma, que foram conservadas sob rigorosa custódia.

Na índia, os últimos destes

preciosos manuscritos foram guardados em um sítio oculto durante o reinado do

Imperador Akbar.

O Professor Max Muller declara que nem o suborno nem as ameaças de

Akbar foram capazes de arrancar aos Brâmanes o texto original dos Vedas; mas

logo se vangloria de que os orientalistas europeus o possuem96. É muito duvidoso

que a Europa tenha o texto completo; e o futuro talvez venha a reservar surpresas

desagradáveis para os orientalistas.

Diz-se também que todos os livros sagrados dessa espécie, cujo texto

não se achava suficientemente velado pelo simbolismo, ou continha alusões muito

diretas aos antigos mistérios, foram então copiados em caracteres criptográficos, tais

que pudessem desafiar a argúcia do mais competente paleógrafo, e depois

destruídos até o último exemplar.

No reinado de Akbar, alguns cortesãos fanáticos,

vendo com pesar o interesse pecaminoso que o seu soberano demonstrava pelas

religiões dos infiéis, chegaram até a ajudar os Brâmanes na ocultação dos

manuscritos.

Um daqueles foi Badâoni, que sentia um horror não dissimulado à

mania de Akbar pelas religiões idolatras.

Foi Badâoni que escreveu em seu Muntakhab at Tawârikb:

"Como eles (os Shrâmanas e Brâmanes) sobrepujam todos os homens

eruditos em seus tratados de moral ou de ciências físicas e religiosas, e alcançam

um altíssimo grau em seu conhecimento do futuro, em seu poder espiritual e em

perfeição humana, apresentaram provas com fundamento em razões e em

testemunhos... e inculcaram suas doutrinas com tanta segurança.

.. que ninguém

poderia levantar a menor dúvida no espírito de Sua Majestade, ainda que as

Introduction to the Science of Religion, pág.

montanhas se desfizessem em pó ou o céu se rasgasse em pedaços... Sua

Majestade houve por bem entrar em averiguações sobre as seitas desses infiéis,

que não podem ser contados, tão numerosos são, e possuem quantidade imensa de

livros revelados97."

É de ver que a obra de Badâoni "foi mantida em segredo e não foi

publicada antes do reinado de Jahângu".

Por outra parte, em todas as grandes e ricas lamaserias existem criptas

subterrâneas e bibliotecas em grutas cavadas na rocha, sempre que os Conpa e os

Lhakhang se achem situados nas montanhas.

Além do Tsaydam ocidental, nos

solitários desfiladeiros do Kuen-lun, há vários destes sítios ocultos.

Ao longo dos

cumes de Altyn-tag, onde a terra ainda não foi tocada por nenhum pé europeu,

existe uma aldeia perdida no interior de profunda garganta.

É um pequeno

aglomerado de casas, mais um lugarejo do que propriamente um mosteiro, com um

templo pobre de aspecto, guardado apenas por um velho lama, que mora em uma

ermida próxima.

Dizem os peregrinos que as galerias e salas subterrâneas do

templo encerram uma coleção de livros, em tão grande número que, segundo as

informações, dariam para ocupar o próprio Museu Britânico.

Reza a mesma tradição que as regiões atualmente desoladas e áridas do

Tarim (um verdadeiro deserto no coração do Turquestão) estavam outrora cobertas

de cidades ricas e florescentes.

Hoje apenas alguns verdes oásis quebram a

monotonia daquela terrível solidão.

Um deles, que recobre o sítio de uma vasta

cidade sepultada no solo arenoso do deserto, não tem dono conhecido, mas é

visitado com freqüência por mongóis e budistas.

A tradição fala também de imensos

Ain i Akbâri, traduzido pelo Dr. Blochmann, citação de Max Muller, op. cit.

recintos subterrâneos, de amplas galerias cheias de esteias e cilindros.

Pode não

passar de um simples rumor, mas também pode ser um fato real.

E provável que tudo isso provoque um sorriso de incredulidade.

Que o

leitor, apesar disso, antes de dar por assente a inverossimilhança da versão, se

detenha um pouco e procure refletir nos seguintes fatos, bem conhecidos.

As

investigações coletivas dos orientalistas, e em especial os trabalhos levados a efeito

nestes últimos anos pelos que se dedicaram ao estudo da Filosofia comparada e da

Ciência das Religiões, trouxeram-lhes a convicção de que um número incalculável

de manuscritos e também de obras impressas, que se sabe terem existido, já não

podem ser encontrados atualmente.

Desapareceram, sem deixar o menor vestígio.

Se eram obras sem importância, é de admitir que as tivessem deixado perecer no

curso ordinário do tempo, e que até os seus nomes se apagassem da memória

humana.

Mas não e assim; pois, conforme esta hoje comprovado, a maior parte

delas continha verdadeiras chaves de outras que ainda existem, embora sejam de

todo incompreensíveis para a maioria de seus leitores, por falta daqueles volumes

adicionais de comentários e explicações.

Tal é o que sucede, por exemplo, com as obras de Lao-tse, o precursor

de Confúcio.

Diz-se que ele escreveu 930 livros sobre ética e religião, e 70 sobre

magia; mil ao todo.

Sua grande obra, o Tao-te-King, o coração de sua doutrina e a

escritura sagrada do Tao-sse contém apenas, como é demonstrado por Stanislas

Julien, "umas 5.000 palavras98", em uma escassa dúzia de páginas; no entanto,

acha o Professor Max Muller que "o texto é ininteligível sem comentários, sendo

Julien obrigado, para sua tradução, a consultar mais de 60 comentadores, o mais

antigo dos quais escreveu por volta do ano 163 antes de Cristo", e não em época

Tao-te-King, pág.

XXVII.

anterior.

Durante os quatro séculos e meio que antecederam a este "mais antigo"

dos comentadores, houve tempo mais que suficiente para que a verdadeira doutrina

de Lao-tse fosse velada à compreensão de todo o mundo, exceto à dos sacerdotes

iniciados.

Os japoneses, entre os quais se encontram hoje os mais sábios

sacerdotes e adeptos de Lao-tse, limitam-se a sorrir em face das suposições e

disparates dos sinólogos europeus; e a tradição afirma que os comentários

chegados ao conhecimento dos nossos orientalistas ocidentais não representam os

lídimos anais ocultos, senão véus intencionais; e que tanto os comentários reais

como quase todos os textos há muito desapareceram aos olhos dos profanos.

Sobre as obras de Confúcio, diz Max Muller:

"Se voltarmos nossa atenção para a China, veremos que a

religião de Confúcio assenta suas bases nos Cinco King e nos

quatro livros Shu, já por si de considerável extensão,

entremeados de amplos comentários, sem os quais os letrados,

inclusive os mais sábios, não se aventurariam a sondar as

profundezas do seu cânone sagrado99."

Mas eles não as sondaram, e esta é precisamente a queixa dos

confucionistas, como externava em Paris, em 1881, um dos mais ilustres membros

dessa corporação religiosa.

Se os nossos eruditos dirigirem a vista para a antiga literatura das

religiões semíticas, para as Escrituras da Caldéia, a irmã maior e inspiradora, senão

a fonte, da Bíblia Mosaica, base e ponto de partida do Cristianismo — que

Max Muller, op. cit., pág.

114.

encontrarão? Que ficará para perpetuar a memória das antigas religiões da

Babilônia, evocar o vasto ciclo de observações astronômicas dos magos caldeus,

explicar as tradições de sua literatura esplêndida e eminentemente oculta? Nada, a

não ser alguns fragmentos atribuídos a Berose.

Estes, aliás, são quase desprovidos de valor, até mesmo como fio

condutor para descobrir o sentido verdadeiro daquilo que desapareceu, por quanto

passaram peias mãos de S. Excelência o Bispo de Cesaréia100 , o qual chamou a si

a função de censor e editor dos anais sagrados das religiões alheias; e trazem, sem

dúvida, até hoje, o selo de sua mão por todos os títulos veraz e digna de fé. Qual é,

com efeito, a história daquele tratado sobre a outrora tão importante religião da

Babilônia?

Escrito em grego para Alexandre Magno, por Berose, sacerdote do templo

de Bel, de acordo com os anais astronômicos e cronológicos conservados pelos

sacerdotes do mesmo templo, e que compreendiam um período de 200.000 anos, o

tratado se encontra desaparecido.

No primeiro século que antecedeu à nossa era,

Alexandre Polyhistor dele fez uma série de compilações, que também se perderam.

Eusébio, bispo de Cesaréia, serviu-se dessas compilações para escrever o seu

Chronicon (270-340 A.D.). Os pontos de semelhança, quase de identidade, entre as

Escrituras dos Judeus e as dos Caldeus101, tornavam estas últimas um verdadeiro

perigo para Eusébio, em seu papel de defensor e campeão da nova fé, que havia

adotado as Escrituras hebraicas e, com elas, uma cronologia absurda.

É

absolutamente certo que Eusébio não poupou as tábuas sincrônicas de Manethon;

Eusébio    Esta concordância só recentemente foi descoberta e documentada, graças ao trabalho de George Smith (veja-se o seu Chaldean Account of Genesis); de modo que foi a falsificação do armênio Eusébio que induziu todas as "nações civilizadas" a aceitar, durante mais de 1.500 anos, as derivações judaicas como direta Revelação Divina.

tanto é assim que Bunsen102 o acusa de haver mutilado a história sem o menor

escrúpulo; e tanto Sócrates, historiador do século V, como Syncellus, vice-patriarca

de Constantinopla no começo do século VIII, o denunciam como um dos mais

ousados e cínicos falsificadores.

Não seria, pois, de estranhar que Eusébio tratasse

com mais respeito os anais caldeus, os quais naquele tempo ameaçavam a nova

religião tão apressadamente aceita.

Assim, com exceção daqueles mais que duvidosos fragmentos, toda a

literatura sagrada dos caldeus sumiu da vista dos profanos, de maneira tão completa

como a perdida Atlântida.

Alguns poucos fatos contidos na história de Berose são

mencionados mais adiante, e poderão projetar muita luz sobre a vera origem dos

Anjos Caídos, personificados por Bel e o Dragão.

Volvendo agora ao mais vetusto modelo da literatura ária, o Rig Veda, e

seguindo aqui, rigorosamente, as indicações dos próprios orientalistas, verá o

estudante que, se bem não contenha o Rig Veda mais de 10.580 versículos, ou

1.028 hinos, não foi ele ainda interpretado corretamente, apesar da contribuição dos

Brâhmanas e da massa de glosas e comentários.

E por quê? A razão,

evidentemente, é que os Brâhmanas, "os mais antigos tratados escolásticos sobre

os primitivos hinos", chamam por sua vez uma chave, que aos orientalistas não foi

dado encontrar.

Que dizem os sábios no que entendem por literatura budista? Terão

conseguido conhecê-la em sua totalidade? Certamente que não.

Apesar dos

volumes do Kanjur e do Tanjur dos budistas do Norte (cada volume, segundo se diz,

"pesa de quatro a cinco libras"), nada, em verdade, se sabe a respeito do autêntico

lamaísmo.

Há, porém, a informação de que o cânon sagrado contém 29.368.

Egypt's Place in History, I, 200.

letras no Saddharmâlankâra103, ou seja, não contando os tratados e os comentários,

cinco ou seis vezes a matéria existente na Bíblia, que, segundo o Professor Max

Muller, contém apenas 3.567.180 letras.

E quanto àqueles 325 volumes (na

realidade são 333 volumes: 108 do Kanjur e 225 do Tanjur), "os tradutores, em vez

de se limitarem a dar-nos as versões corretas, entremearam-nas com os seus

próprios comentários, no afã de justificar os dogmas das diversas escolas104".

Ademais, "de acordo com uma tradição conservada pelas escolas budistas, assim as

do Norte como as do Sul, o cânon sagrado compreendia, em sua origem, de 80.

a 84.000 tratados; a maior parte deles, porém, se perdeu, tendo restado apenas uns

6.000", acrescenta o Professor.

Perdidos para os europeus, naturalmente.

Mas

estará ele bem seguro de que igualmente se perderam para os budistas e os

brâmanes?

Levando em conta o caráter sagrado em que os budistas tinham tudo o

que se escrevia sobre Buddha e a Boa Lei, a perda de cerca de 76.000 tratados

parece fantástica.

Se fosse o caso inverso, qualquer pessoa que conhece o curso

natural de acontecimentos subscreveria a afirmação de que podiam ter sido

destruídos, daquele número, uns 5.000 ou 6.000 tratados, durante as perseguições

ou as emigrações da Índia.

Como, porém, está confirmado que os Arhats budistas,

com o propósito de propagar a nova fé além de Cachemira e dos Himalaias,

iniciaram seu êxodo religioso no ano 300 antes de Cristo105, e que chegaram à

China no ano 61 de nossa era106, quando Kashyapa, a convite do imperador Ming-ti,

foi ali para ensinar ao "Filho do Céu" as doutrinas budistas, parece estranho que os

orientalistas venham falar de semelhante perda como se fosse realmente possível.

Spence Hardy: The Legends and Theories of Buddhists, pág.

66.     E. Schlagintweit: Buddhism in Tibet, pág.

77.     Lassen (Ind.

Althersumkunde, II, 1072) fala de um mosteiro budista cons¬truído nos montes Kailâs no ano 137 antes de Cristo; e o general Cunningham de outro anterior     Rev.

J. Edkins: Chinese Buddhism, pág.

87.

Nem por um momento parecem admitir a possibilidade de que os textos estejam

perdidos somente para o Ocidente e para eles; ou que os povos asiáticos observem

a inusitada atitude de conservá-los ciosamente fora do alcance dos estrangeiros,

recusando-se a entregá-los à profanação e ao mau emprego por parte de outras

raças, ainda que sejam estas consideradas "muitíssimo superiores" a eles.

Tendo em vista as numerosas confissões e queixas procedentes de

quase todos os orientalistas107, pode o público estar certo do seguinte: 1.°) Que os

estudantes das religiões antigas dispõem realmente de escassas informações em

que assentar conclusões definitivas, como geralmente fazem, a respeito das velhas

crenças.

2.°) Que, não obstante, essa carência de d ados não os impede de

dogmatizar.

Poder-se-ia supor que, graças aos inúmeros anais da teogonia egípcia e

dos mistérios, conservados pelos clássicos e por vários autores da antigüidade, os

ritos e dogmas do Egito dos Faraós deviam, pelo menos, ser mais bem

compreendidos; em todo caso, melhor que as filosofias abstratas e o panteísmo da

Índia, sobre cuja língua e religião não linha a Europa a menor idéia, por assim dizer,

antes do início deste século.

Ao longo do Nilo e em toda a superfície do Egito vêem-

se, ainda hoje, relíquias que falam eloqüentemente da própria história; e outras são

exumadas todos os anos e até diariamente.

Entretanto, assim não acontece.

E o próprio sábio e filólogo de Oxford

confessa a verdade, dizendo:

"Apesar de... contemplarmos as pirâmides ainda de pé, e as

ruínas de templos e labirintos com os seus muros cobertos de

inscrições hieroglíficas e de estranhas pinturas de deuses e

Vejam-se, por exemplo, os discursos de Max Muller.

deusas...; apesar de possuirmos, em rolos de papiros que

parecem desafiar a ação destruidora do tempo, fragmentos dos

chamados livros sagrados dos Egípcios; apesar de se haver

decifrado muita coisa dos antigos documentos daquela

misteriosa raça — a fonte principal da religião do Egito e a

intenção original do seu culto e cerimônias estão ainda muito

longe de ser por nós completamente descobertas108."

Nesse particular, estão aí os misteriosos documentos hieroglíficos; mas

as chaves, que — só elas — podiam fazê-los inteligíveis, desapareceram totalmente.

Os nossos grandes egiptólogos conhecem tão pouco sobre os ritos funerários do

Egito, assim como dos sinais exteriores da diferença de sexo nas múmias, que vão

ao ponto de cometer os erros mais ridículos.

Há cerca de um ou dois anos foi

descoberto um desses enganos em Bulaq, Cairo.

A múmia que se acreditava

pertencer à esposa de um faraó de menor importância veio a converter-se, graças à

inscrição num amuleto pendente do pescoço, na de Sesóstris, o maior rei do Egito!

Apesar de tudo, tendo concluído que "existe uma relação natural entre a

língua e a religião", e que "houve uma religião ária comum antes da divisão da raça

ariana"; "uma religião semítica comum antes da divisão da raça semítica", e "uma

religião turaniana comum antes da separação dos chineses e de outras tribos

pertencentes à raça turaniana"; mas havendo, de fato, descoberto somente "três

antigos centros de religião" e "três centros de linguagem"; e apesar de permanecer

na mais completa ignorância tanto em relação àquelas religiões e línguas primitivas

Op. cit., pág.

118.

como à sua origem, - não vacila o Professor em declarar que "foi encontrada uma

base realmente histórica para o estudo científico das religiões do mundo".

Um "estudo científico" do assunto não é garantia de sua "base histórica";

e, com tal escassez de dados à mão, nenhum filólogo, por mais eminente que seja,

está autorizado a apresentar suas próprias conclusões como fatos históricos.

Sem

dúvida, o ilustre orientalista provou à saciedade e em termos satisfatórios para o

mundo que, consoante a lei de Grimm, relativa às regras fonéticas, Odin e Buddha

são dois personagens diferentes, completamente distintos um do outro; e o provou

cientificamente.

Mas quando, não se limitando a isso, acrescenta logo a seguir que

"Odin era adorado como a suprema divindade em uma época muito anterior à do

Veda e de Homero109", avança uma afirmativa que não tem a menor base "histórica".

Assim, ele subordina a história e os fatos a suas conclusões pessoais — o que

poderá ser muito "científico" aos olhos dos orientalistas, mas está muito longe da

verdade.

As opiniões contraditórias dos diversos filólogos e orientalistas eminentes,

desde Martin Haug até o próprio Max Muller, a propósito dos assuntos de cronologia,

como sucede no caso dos Vedas, são a melhor prova de que o enunciado não se

ajusta a nenhuma base "histórica", não passando a tal "evidência intrínseca", muitas

vezes, do clarão de um fogo fátuo, em lugar de ser um farol que possa servir de guia

seguro.

E a novel ciência da mitologia comparada não dispõe de argumentos mais

convincentes para opor à afirmação de eruditos escritores que, desde um século

aproximadamente, insistiram em que devia haver "fragmentos de uma revelação

primitiva, feita aos antecessores do gênero humano... fragmentos conservados nos

templos da Grécia e da Itália". É isto precisamente o que todos os Iniciados e os

Pandits do Oriente têm proclamado ao mundo de tempos em tempos.

Op. cit., pág.

318.

Por outra parte, um ilustrado sacerdote cingalês asseverou à autora

destas linhas ser coisa sabida que os mais importantes tratados sagrados do cânon

budista permaneciam guardados em países e lugares inacessíveis aos pandits

europeus; e o saudoso Swâmi Dayânand Sarasvati, o maior sanscritista indiano de

seu tempo, fez idêntica declaração a alguns membros da Sociedade Teosófica a

respeito de antigas obras bramânicas.

Quando o informaram de que o Professor

Max Muller havia sustentado perante os ouvintes de suas conferências que "a teoria

de uma revelação primitiva e sobrenatural outorgada aos progenitores da raça

humana não encontra hoje senão um reduzido número de partidários", aquele santo

e sábio homem desatou a rir.

Sua resposta foi significativa: "Se o Sr. Moksh Mooller

(como ele pronunciava o nome) fosse um brâmane e viesse procurar-me, eu poderia

levá-lo a uma caverna gupta (uma cripta secreta), perto de Okhee Math, nos

Himalaias, onde ele não tardaria em certificar-se de que o que transpôs o Kâlapâni

(as negras águas do Oceano), da índia para a Europa, não representa senão

fragmentos de cópias inautênticas de alguns trechos dos nossos livros sagrados.

Existiu uma 'revelação primitiva', que ainda se conserva; e não ficará perdida para o

mundo, porque nele há de reaparecer; simplesmente, terão os Mlechchhas110 que

esperar." Interrogado sobre este ponto, nada mais quis adiantar o Swami.

Passou-se

isto em Meerut, no ano de 1880.

Sem dúvida, foi cruel a mistificação de que foram vítimas, no século

passado, em Calcutá, o Coronel Wilford e Sir William Jones, por parte dos

brâmanes.

Mas foi bem merecida, e no caso não há que censurar senão os

missionários e o próprio Coronel Wilford.

Os primeiros, segundo o testemunho

pessoal de Sir William Jones111 , foram sobremodo imprudentes ao sustentar que "os

Estrangeiros, não pertencentes à raça ariana.

Asiatic Researches, I, pág.

272.

hindus, mesmo hoje, eram quase cristãos, porque os seus Brahmâ, Vishnu e

Mâhesha não eram outra coisa senão a Trindade cristã112". Foi uma boa lição; fez

com que os orientalistas se tornassem duplamente cautelosos; mas é possível que

haja contribuído para que alguns deles ficassem demasiado suspicazes, e desse

causa, como reação, a que o pêndulo das conclusões precedentes oscilasse de

modo exagerado em sentido oposto.

Porque "aquela primeira provisão do mercado

bramânico", oferecida à procura do Coronel Wilford, provocou de parte dos

orientalistas modernos a necessidade evidente e o desejo de apregoarem que quase

todos os manuscritos sânscritos arcaicos são tão modernos que justificam

plenamente os missionários, quando se valem da oportunidade.

E estes o fazem na

medida em que o facultam os recursos de sua inteligência, como dão prova as

tentativas absurdas ultimamente empreendidas no sentido de demonstrar que toda a

história de Krishna, narrada nos purânas, era um plágio da Bíblia, perpetrado pelos

Brâmanes!

Mas os fatos referidos pelo professor de Oxford em suas Conferências, no

tocante às hoje famosas interpelações que beneficiaram o Coronel Wilford (embora

depois lhe servissem de irrisão), não contradizem em coisa alguma as conclusões

que se impõem a quem quer que estude a Doutrina Secreta.

Porque, se os

resultados mostram que nem o Novo nem ainda o Velho Testamento copiaram algo

das religiões antigas dos brâmanes e dos budistas, não se segue daí que os judeus

não tivessem ido buscar nas escrituras dos Caldeus tudo o que sabiam, nessas

mesmas escrituras que foram mais tarde mutiladas por Eusébio.

Quanto aos

Caldeus, é certo que deviam sua primitiva ciência aos brâmanes: Rawlinson

Veja-se Max Muller, op. cit., págs.

288 e segs.

Trata-se aqui da hábil falsificação, mediante folhas insertas em velhos manuscritos purânicos e grafadas em sânscrito arcaico e correto, de tudo quanto os pandits tinham ouvido o Coronel Wilford dizer acerca de Adão e Abraão, Noé e seus três filhos etc.

etc.

demonstra ser incontestável a influência védica na antiga mitologia da Babilônia, e o

Coronel Vans Kennedy declarou, há muito tempo, com notável exatidão, que a

Babilônia foi, em suas origens, um centro de estudos sânscritos e bramânicos.

Mas

é preciso acreditar que todas estas provas perdem o seu valor em presença da

última teoria do Professor Max Muller...

Todo o mundo sabe em que consiste essa teoria.

O código das leis

fonéticas passou a ser um dissolvente universal para todas as identificações e

conexões entre os deuses de vários povos.

Assim, embora a mãe de Mercúrio

(Buddha, Thoth-Hermes etc.) fosse Maia; embora a mãe de Gautama Buddha

também se chamasse Mâyâ; e embora a mãe de Jesus fosse igualmente Mâyâ

(Ilusão, por que Maria é Mare, o Mar, símbolo da grande Ilusão) - esses três

personagens não têm nenhuma conexão entre si, nem podem tê-la, desde que Bopp

"estabeleceu o seu código de leis fonéticas".

Em seu afã de reunir os diversos fins da história não escrita, os nossos

orientalistas dão um passo por demais ousado quando negam a priori tudo o que se

não ajusta a suas conclusões especiais.

Assim, enquanto diariamente se fazem

novos descobrimentos de grandes artes e ciências, que remontam à noite dos

tempos, contesta-se até o simples conhecimento da escrita por algumas das nações

mais antigas, que são qualificadas como bárbaras e desprovidas de cultura.

No

entanto, são ainda visíveis os traços de uma imensa civilização, inclusive na Ásia

Central.

Tal civilização é indubitavelmente pré-histórica.

E como poderia existir

civilização sem literatura, de uma ou de outra forma, sem anais ou crônicas? O

senso comum deveria ser suficiente para suprir os elos partidos na história das

nações que se foram.

A muralha gigantesca e ininterrupta de montanhas que

circunda todo o planalto do Tibete, desde o curso superior do rio Khuan-Khé até as

colinas de Karakorum, foi testemunha de uma civilização que durou milhares de

anos, e poderia revelar à humanidade os mais estranhos segredos.

Foi num tempo

em que as partes oriental e central daquelas regiões — o Nan-Chang e o Alty-Tâgh

— estiveram semeadas de cidades que podiam rivalizar com Babilônia.

Escoou-se

todo um período geológico sobre essas terras, após haver soado a derradeira hora

de tais cidades, conforme o atestam os montes de areia movediça e o solo ainda

hoje estéril das imensas planícies centrais da bacia do Tarim, de que apenas as

orlas são conhecidas superficialmente pelos viajantes.

No interior destas mesetas

arenosas existe água, e há frescos e florescentes oásis, onde nenhum pé europeu

se aventurou a penetrar, pelo receio de um solo traiçoeiro.

Entre os verdes oásis se

encontram alguns inteiramente inacessíveis aos profanos, inclusive os viajantes

indígenas.

Podem os furacões "fender as areias e varrer planícies inteiras": são

impotentes para destruir o que está fora de seu alcance.

Os subterrâneos

construídos nas entranhas da terra garantem os tesouros ali encerrados; e como o

seu acesso permanece oculto, não é de temer que venham a ser descobertos, ainda

que vários exércitos invadissem os ermos arenosos, onde

Nem lago, nem árvore, nem casa se divisam,

E a cordilheira forma uma áspera defesa

Em torno da árida paisagem do deserto...

Mas não é necessário mandar o leitor através do deserto, já que idênticas

provas de uma civilização antiga se vêem nos pontos relativamente povoados

daquela região.

O oásis de Tchertchen, por exemplo, situado a uns 4.000 pés sobre

o nível do rio Tchertchen-Darya, acha-se rodeado em todas as direções pelas ruínas

de vilas e cidades arcaicas.

Uns 3.000 seres humanos representam ali os restos de

cem raças e nações extintas, cujos nomes os nossos etnólogos desconhecem por

completo.

Um antropólogo sentir-se-ia sobremodo embaraçado para os classificar,

dividir e subdividir; tanto mais que os descendentes de todas essas raças e tribos

antediluvianos sabem tão pouco a respeito dos seus antepassados como se

tivessem caído da Lua.

Quando inquiridos sobre a sua origem, respondem não

saber de onde vieram seus pais, mas que ouviram dizer que seus primeiros ou

primitivos ascendentes foram governados pelos grandes Gênios daqueles desertos.

Pode isto ser levado à conta de ignorância e superstição.

Em face, porém, dos

ensinamentos da Doutrina Secreta, pode-se admitir que a resposta seja o eco de

uma tradição antiga.

Só a tribo de Khoorassan pretende ter vindo do país conhecido

hoje por Afeganistão, em época muito anterior a Alexandre; e para apoiar essa

afirmativa invoca os contos e legendas do seu povo.

O viajante russo Coronel Prjevalsky (posteriormente General) encontrou,

próximo ao oásis de Tchertchen, as ruínas de duas grandes cidades, a mais antiga

das quais, segundo a tradição local, foi destruída há 3.000 anos por um herói

gigante, e a outra pelos Mongóis no século X de nossa era.

"Os sítios das duas cidades estão agora cobertos, por causa das areias movediças e

do vento do deserto, de relíquias estranhas e heterogêneas, fragmentos de

porcelana, utensílios de cozinha e ossos humanos.

Os indígenas encontram com

freqüência moedas de cobre e de ouro, lingotes de prata fundida, diamantes e

turquesas, e, o que é ainda mais notável, vidro quebrado... Vêem-se também

ataúdes feitos de um material ou madeira incorruptível, contendo corpos

embalsamados em perfeito estado de conservação... As múmias de homens revelam

indivíduos de estatura elevada e compleição forte, com longas cabeleiras

onduladas.... Descobriu-se uma cripta com doze cadáveres sentados.

De outra vez,

em um ataúde separado, deparamos com o de uma mulher jovem.

Os seus olhos

estavam cerrados com discos dourados, e os maxilares solidamente presos por uma

argola de ouro, que passava sob o queixo e pela parte superior da cabeça.

Estava

vestida com uma túnica justa de lã, tinha o peito coberto de estrelas de ouro e os

pés desnudos113."

Acrescenta o famoso viajante que, durante todo o seu caminho ao longo

do rio Tchertchen, chegaram aos seus ouvidos lendas referentes a vinte e três

cidades sepultadas há muito tempo pelas areias movediças do deserto.

A mesma

tradição observa-se na região do Lob-nor e no oásis de Kerya.

Os vestígios de tal civilização, juntamente com estas e outras tradições

semelhantes, nos autorizam a dar crédito a várias lendas confirmadas por indianos e

mongóis educados e cultos, que falam de imensas bibliotecas desenterradas das

areias, assim como de relíquias diversas do antigo Saber Mágico, tudo isso

guardado em lugar seguro.

Recapitulando: A Doutrina Secreta foi a religião universalmente difundida

no mundo antigo e pré-histórico.

As provas de sua difusão, os anais autênticos de

sua história, uma série completa de documentos que demonstram o seu caráter e a

sua presença em todos os países, juntamente com os ensinamentos de seus

grandes Adeptos, existem até hoje nas criptas secretas das bibliotecas pertencentes

à Fraternidade Oculta.

De uma conferência de N. M. Prjevalsky.

A afirmativa cresce em verossimilhança quando atentamos para os

seguintes fatos: a tradição de que milhares de pergaminhos antigos foram salvos por

ocasião da destruição da Biblioteca de Alexandria; os milhares de obras sânscritas

desaparecidas na Índia durante o reinado de Akbar; a tradição universal, existente

tanto na China como no Japão, de que os verdadeiros textos antigos, como os

comentários sem os quais não podem ser entendidos, se encontram desde há muito

tempo tora do alcance de mãos profanas; o desaparecimento da vasta literatura

sacra da Babilônia; a perda das chaves que unicamente poderiam decifrar os mil

enigmas das inscrições hieroglíficas do Egito; a tradição corrente na Índia de que os

genuínos comentários secretos, os únicos que podem tornar inteligíveis os Vedas,

embora subtraídos às vistas dos profanos, estão à disposição do Iniciado,

escondidos em subterrâneos e criptas secretas; e há crença idêntica entre os

budistas, no que se refere aos seus livros sagrados.

Afirmam os Ocultistas que todos esses documentos existem, a recato das

mãos espoliadoras dos ocidentais, e deverão reaparecer em uma época mais

esclarecida - época que, segundo as palavras do Swâmi Dayânand Sarasvati, "tão

cedo ainda não virá para os Mlechchhas" (isto é, para os estrangeiros e selvagens,

que vivem fora da civilização ariana).

Não é por culpa dos Iniciados que tais documentos se acham atualmente

"perdidos" para o profano; e a atitude daqueles não foi ditada pelo egoísmo, nem

pelo desejo de monopolizarem a ciência sagrada que dá a vida.

É que há certos

aspectos da Doutrina Secreta que devem permanecer ocultos a olhos profanos

durante idades sem conta.

Porque revelar segredos de tal magnitude às massas não

preparadas seria o mesmo que entregar uma vela acesa a uma criança dentro de

um paiol de pólvora.

A resposta a uma pergunta que amiúde fazem os que se dedicam a

estudos desta natureza, quando se deparam com uma afirmativa tal como a

anteriormente expressa, pode ser aqui tracejada.

Compreendemos - dizem - a necessidade de ocultar do público segredos

como o do Vril, ou seja, o da força que J. W. Keely, de Filadélfia, acreditava haver

descoberto, capaz de destruir a rocha; o que, porém, não podemos compreender é

que se veja perigo na revelação de uma doutrina puramente filosófica, qual, por

exemplo, a da evolução das Cadeias Planetárias.

O perigo está em que doutrinas como as da Cadeia Planetária ou a das

Sete Raças proporcionam, desde logo, uma chave sétupla do homem; pois cada um

dos princípios humanos está em correlação com um plano, um planeta e uma raça; e

os princípios humanos estão, em cada plano, em correspondência com as forças

ocultas de natureza sétupla — sendo as dos planos superiores dotadas de uma

potência espantosa.

Assim, toda classificação setenária é uma chave que pode abrir

imediatamente as portas de tremendos poderes ocultos, cujo abuso daria origem a

incalculáveis males para a humanidade; uma chave que talvez não fosse utilizada

pela geração atual, especialmente pelos ocidentais, protegidos por sua própria

cegueira e por sua ignorante incredulidade materialista no tocante às coisas ocultas;

mas, em todo caso, uma chave, que seria uma força de efeitos bem reais nos

primeiros séculos da era cristã, quando os homens estavam plenamente

convencidos da realidade do ocultismo e entravam num ciclo de degradação que os

predispunha a abusar dos poderes ocultos e a praticar a feitiçaria da pior espécie.

Ocultavam-se os documentos, é verdade; mas a ciência propriamente dita

e sua existência real jamais eram tratadas como segredos pelos Hierofantes do

Templo, onde os MISTÉRIOS foram sempre uma disciplina e estímulo para a

virtude.

São novidades bem antigas, tantas vezes reveladas pelos grandes Adeptos,

desde Pitágoras e Platão até os Neoplatônicos.

Foi a nova religião dos Nazarenos que fez operar-se uma reviravolta na

regra de conduta seguida durante séculos.

Há, por outra parte, um fato bastante conhecido e sobremodo curioso,

que foi confirmado à autora por um cavalheiro respeitável e digno de fé, adido a uma

embaixada russa durante muitos anos: a existência, nas Bibliotecas Imperiais de

São Petersburgo, de vários documentos pelos quais se comprova que, ainda em

época recente, quando a Franco-maçonaria e as Sociedades Secretas de místicos

floresciam livremente na Rússia, ou seja, em fins do século passado e começo do

presente, mais de um místico russo se dirigiu ao Tibete atravessando os montes

Urais, para adquirir o saber e a iniciação nas criptas desconhecidas da Ásia Central.

E mais de um regressou, anos depois, com um tesouro de conhecimentos que lhe

não seria dado encontrar em nenhum lugar da Europa.

Poderíamos citar inúmeros casos, inclusive nomes bem conhecidos, se tal

publicidade   não   tivesse   o   inconveniente   de   causar   constrangimento   aos

descendentes, que ainda vivem, das famílias desses modernos Iniciados.

Quem

desejar certificar-se do fato não precisará senão consultar os anais e a história da

Franco-maçonaria nos arquivos da metrópole russa.

Tudo isso vem corroborar afirmações tantas vezes repetidas, algumas até

com demasiada indiscrição.

As virulentas acusações de invencionice premeditada e

de embuste, lançadas contra aqueles que apenas veicularam fatos reais, ainda que

não muito conhecidos, têm servido unicamente para engendrar um mau Carma para

os caluniadores, em vez de contribuir para o benefício da humanidade.

Agora,

porém, que o dano está consumado, não se deve sonegar a verdade por mais

tempo, sejam quais forem as conseqüências.

É então a Teosofia uma nova religião? --- eis a pergunta.

De nenhum

modo; não é uma "religião", nem é "nova" a sua filosofia; pois, conforme temos

declarado, é tão velha quanto o homem pensador.

Seus princípios não são agora

publicados pela primeira vez, mas hão sido cautelosamente revelados e ensinados

por mais de um Iniciado europeu, especialmente pelo falecido Ragon.

Sábios eminentes já disseram que não houve um só fundador de religião,

seja ário, semita ou turaniano, que tivesse inventado uma religião nova ou revelado

uma verdade nova.

Todos esses fundadores foram mensageiros — não mestres

originais — e autores de formas e interpretações novas; mas as verdades, em que

se apoiavam seus ensinamentos, eram tão antigas quanto o gênero humano.

Assim,

escolhiam e ensinavam às multidões uma ou mais de uma dessas grandes

verdades, reveladas oralmente à humanidade nos seus primórdios, preservadas e

perpetuadas por transmissão pessoal, feita de uma a outra geração de Iniciados no

Adyta dos templos durante os Mistérios — realidades visíveis tão somente para os

verdadeiros Sábios e Videntes.

Desse modo, cada nação recebeu a seu tempo algumas das verdades

aludidas, sob o véu de seu próprio simbolismo, local e peculiar, simbolismo que, com

o correr dos anos, evolucionou para um culto mais ou menos filosófico, um Panteão

de aparência mítica.

É por isso que Confúcio (na cronologia histórica um legislador

muito antigo, mas um sábio bem moderno na história do mundo) foi assinalado pelo

Dr. Legge114 como um mensageiro, e não como um criador.

E ele próprio dizia: "Eu

Life and Teachings of Confucius, pág.

96.

não faço mais que transmitir; não posso criar nenhuma coisa nova.

Creio nos

antigos, e portanto os venero115."

A autora também os venera e neles acredita, assim como nos modernos

herdeiros de sua Sabedoria.

E, com essa dupla fé, transmite agora, a todos aqueles

que o desejem, o que ela própria recebeu e aprendeu.

Aos que lhe recusem o

testemunho — e que serão a grande maioria — não guardará o menor

ressentimento, pois, negando, eles estão no seu direito, do mesmo modo que a ela

assiste o de afirmar.

As duas partes estarão contemplando a Verdade de ângulos

inteiramente diversos.

Segundo as regras da crítica científica, deve o orientalista

rejeitar a priori toda proposição que ele não possa cabalmente verificar por si

mesmo.

E como poderia um sábio ocidental aceitar, por ouvir dizer, coisas sobre as

quais nada conhece?

Em verdade, o que se contém nestes volumes foi recolhido tanto de

ensinamentos orais como escritos.

Esta primeira apresentação da doutrina esotérica

se acha baseada nas Estâncias, que representam os anais de um povo que a

etnologia desconhece.

Foram escritas, segundo se afirma, em um idioma ausente da

nomenclatura das línguas e dialetos que a Filologia conhece; assegura-se que

promanam de uma fonte que a ciência repudia, ou seja, do Ocultismo; e, finalmente,

são oferecidas ao público por intermédio de uma pessoa desacreditada, sem cessar,

perante o mundo, por todos os que odeiam as verdades importunas ou têm algum

interesse particular a defender.

Devemos, portanto, contar com o repúdio destes

ensinamentos, e conformar-nos com isso desde já. Nenhum daqueles que se

consideram "sábios", em qualquer dos ramos da ciência exata, se dignará de levá-

los a sério.

Escarnecê-los e rejeitá-los a priori — tal será a atitude que prevalecerá

Lun-Yu (§ I.a.), Schott: Chinesische Literatur, pág.

7; citado por Max Muller.

no século atual; mas somente neste, porque no século XX da era cristã os eruditos

principiarão a reconhecer que a Doutrina Secreta não foi nem inventada nem

exagerada, mas, pelo contrário, simplesmente delineada; e, por fim, que os seus

ensinamentos são anteriores aos Vedas.

Não vai nisso pretendermos o dom da

profecia: é uma simples e despresumida afirmação baseada no conhecimento dos

fatos.

De cem em cem anos surge uma tentativa de mostrar ao mundo que o

Ocultismo não é uma vã superstição.

Uma vez que se possa de algum modo

entreabrir a porta, ela ir-se-á abrindo cada vez mais nos séculos sucessivos.

Os

tempos estão propícios para o advento de conhecimentos mais sérios que os

permitidos até agora, se bem que ainda tenham de ser muito limitados.

Não foram os Vedas também escarnecidos e repudiados, e havidos como

"uma falsificação moderna", não faz ainda cinqüenta anos? Não houve um tempo em

que o sânscrito foi declarado filho do grego, e um dialeto derivado dessa língua,

segundo Lemprière e outros eruditos? Até 1820, diz o Professor Max Muller, os livros

sagrados dos brâmanes, dos magos e dos budistas "eram desconhecidos; duvidava-

se mesmo de sua existência, e não havia um só erudito que pudesse traduzir uma

linha dos Vedas... do Zend Avesta... ou do Tripitaka budista; e hoje está provado que

os Vedas pertencem à mais remota antigüidade, sendo a sua conservação quase

uma maravilha".

Outro tanto se dirá da Doutrina Secreta Arcaica, quando se produzirem

provas irrecusáveis de sua existência e de seus anais.

Mas passarão ainda muitos

séculos antes que se publique muita coisa mais do que agora.

Falando da chave

para os mistérios do Zodíaco, quase perdida para o mundo, teve a autora

oportunidade de observar, em Ísis sem Véu, há cerca de dez anos: "A esta chave

devem dar-se sete voltas antes que todo o sistema possa ser divulgado.

Não

daremos aqui senão uma volta, para permitir ao profano uma rápida visão do

mistério.

Feliz aquele que puder apreender o todo!"

O mesmo se dirá de todo o Sistema Esotérico.

Uma volta à chave, e não

mais, se deu em Ísis sem Véu.

Muito mais coisas são explicadas nos presentes

volumes.

Naqueles dias a autora conhecia pouca a língua em que a obra foi escrita,

e estas revelações, que agora podem ser feitas, lhe eram então vedadas.

No século XX, algum discípulo mais bem informado, e com qualidades

mui superiores, poderá ser enviado pelos Mestres da Sabedoria para dar provas

definitivas e irrefutáveis de que existe uma Ciência chamada Gupta Vidyâ; e de que,

assim como as nascentes do Nilo outrora envoltas em mistério, a fonte de todas as

religiões e filosofias atualmente conhecidas permaneceu esquecida e perdida para a

humanidade durante séculos, mas foi afinal encontrada.

A uma obra tal como esta não podia servir de introdução um simples

prefácio, exigindo antes um volume; e um volume que expusesse fatos, não meras

dissertações, porque A DOUTRINA SECRETA não é um tratado ou série de teorias

vagas, senão uma explanação de tudo o que pode ser dado ao mundo neste século.

Seria inútil incluir, nas páginas do livro propriamente dito, aqueles pontos

dos   ensinamentos     esotéricos   que     escaparam    à    interdição,   sem   que,

preliminarmente, ficasse    estabelecida    a autenticidade    ou, pelo menos,       a

probabilidade da existência de semelhantes ensinamentos.

As afirmações que

vamos fazer devem trazer o abono de várias autoridades, tais como as de antigos

filósofos, de escritores clássicos e até de eruditos Padres da Igreja, alguns dos quais

conheceram e estudaram essas doutrinas, viram e leram obras escritas sobre este

assunto, notando-se entre eles os que chegaram a ser pessoalmente iniciados nos

mistérios antigos, durante cuja celebração eram representadas alegoricamente as

doutrinas ocultas.

Terão de ser citados nomes históricos e dignos de confiança,

autores bem conhecidos, antigos e modernos, de competência indiscutível,

julgamento reto e veracidade comprovada; nomeados também alguns dos mais

esclarecidos e famosos discípulos das artes e ciências secretas, juntamente com os

mistérios destas últimas, tal como foram divulgados, ou melhor, apresentados ao

público, em sua estranha forma arcaica.

Como proceder? Qual o melhor caminho para alcançar esse objetivo? Eis

a questão que nos temos sem cessar proposto.

Para tornar mais claro o que temos em mente, vamos tentar uma

comparação.

Quando um viajante, procedente de regiões bem exploradas, chega de

súbito às fronteiras de uma terra incógnita, circundada e oculta à vista por imensa

barreira de rochas inacessíveis, pode, apesar disso, negar-se a reconhecer que se

viu frustrado em seus planos de observação.

O obstáculo o impede de passar

adiante.

Mas, se lhe não é dado visitar pessoalmente a misteriosa terra, pode, sim,

encontrar meios de examiná-la do ponto mais próximo a que tenha acesso.

Auxiliado

pelo conhecimento das paisagens que deixou atrás, pode formar uma idéia geral e

suficientemente correta da perspectiva adiante da barreira, bastando, para isso,

subir às elevações da vizinhança.

Uma vez ali, ser-lhe-á fácil contemplar à vontade o

panorama que além se descortina, e comparar o que confusamente percebe com o

que lhe ficou para trás; pois, mercê de seus esforços, conseguiu transpor a linha das

brumas e dos cimos cobertos de nuvens.

Tal ponto de observação preliminar não o podemos oferecer nestes

volumes àqueles que ambicionem conhecer de maneira mais completa os mistérios

dos períodos pré-arcaicos referidos nos textos.

Se o leitor, porém, quiser ter

paciência e se dispuser a um lance de vista sobre o estado atual das diversas

crenças existentes na Europa, comparando-as ao que a história refere das épocas

que imediatamente precederam e seguiram a era cristã, poderá encontrar tudo isso

em um futuro volume da presente obra116.

Nesse volume se apresentará uma breve recapitulação dos principais

Adeptos historicamente conhecidos; dar-se-á notícia de como os Mistérios decaíram,

principiando em seguida a desaparecer, e apagando-se finalmente da memória dos

homens, a verdadeira natureza da Iniciação e da Ciência Sagrada: Passaram desde

então a ser ocultos os seus ensinamentos, e a Magia não persistiu senão, quase

sempre, sob as cores veneráveis, mas por vezes enganosas, da Filosofia Hermética.

Assim como o verdadeiro Ocultismo havia prevalecido entre os místicos durante os

séculos que antecederam a nossa era, assim a Magia, ou antes a Feitiçaria com

suas artes ocultas, seguiu-se ao advento do Cristianismo.

Naqueles primeiros séculos desdobrou-se o fanatismo em ingentes e

pertinazes esforços no sentido de obliterar todo e qualquer vestígio da obra mental e

intelectual dos pagãos.

Mas foi tudo em vão, ainda que o mesmo espírito do obscuro

gênio do fanatismo e da intolerância haja, desde esse tempo, adulterado

sistematicamente todas as brilhantes páginas escritas nos períodos anteriores ao

Cristianismo.

A própria história, apesar de seus anais imperfeitos, conservou alguns

fragmentos que sobreviveram àquele período, suficientes para lançar uma luz

imparcial sobre o conjunto.

Que o leitor se detenha um instante em companhia da autora no ponto de

observação escolhido, e concentre toda a sua atenção nos 1.000 anos que,

correspondendo aos períodos anteriores e posteriores ao Cristianismo, se acham

divididos em duas partes pelo ano Um da Natividade.

Este acontecimento, seja ou

A edição de 1888 dizia: "no volume III desta obra".

não historicamente exato, constituiu-se o primeiro de uma série de baluartes

levantados para se oporem a um possível retorno, e até mesmo à simples

observação retrospectiva, das tão odiadas religiões do passado: odiadas e temidas,

porque projetavam uma luz demasiado intensa sobre a interpretação nova e

intencionalmente velada do que hoje se chama a "Nova Lei".

Por sobre-humanos que fossem os esforços dos primeiros Padres da

Igreja para riscar a Doutrina Secreta da memória dos homens, todos eles se

frustraram.

A verdade jamais pode ser destruída; e por isso não surtiu efeito a

tentativa de eliminar inteiramente da face da Terra todo vestígio da antiga

Sabedoria, nem de aguilhoar e amordaçar todos aqueles que dela possam dar

testemunho.

Se se atentar para os milhares e talvez milhões de manuscritos

queimados; os monumentos reduzidos a pó com suas inscrições por demais

indiscretas e pinturas de um simbolismo excessivamente sugestivo; a multidão de

eremitas e ascetas que passaram a percorrer as ruínas das cidades do alto e do

baixo Egito, os desertos e as montanhas, os vales e as terras altas, buscando com

ardor obeliscos e colunas, rolos e pergaminhos, para destruir os que contivessem o

símbolo do Tau ou qualquer outro signo de que a nova fé se havia apropriado —

compreender-se-á facilmente por que sobrou tão pouco dos anais do passado.

A verdade é que o obsediante espírito de fanatismo dos cristãos dos

primeiros séculos e da Idade Média, como também ocorreu depois com os sectários

do islamismo, preferiu sempre viver no obscurantismo e na ignorância.

Uns e outros

converteram.

.................. o sol em sangue,

E fizeram da terra uma tumba,

Da tumba um inferno, e deste inferno

Inda muito mais profundas trevas!

Ambas as religiões conquistaram seus prosélitos com a ponta da espada;

ambas construíram seus templos sobre enormes hecatombes de vítimas humanas.

No pórtico do século I de nossa era brilharam fatidicamente estas palavras

ominosas: "O CARMA DE ISRAEL". Sobre os umbrais do XIX poderão ler os

profetas do futuro outras palavras que farão referência ao Carma da história

ardilosamente falseada dos fatos deturpados de propósito e dos grandes caracteres

caluniados ante a posteridade e destruídos até ficarem irreconhecíveis, entre os dois

carros de Jagannâtha: o Fanatismo e o Materialismo — um que tudo aceita e o outro

que tudo nega.

Sábio é aquele que se mantém tranqüilo entre os dois extremos, e

que confia na justiça eterna das coisas.

Diz Faiza Dîwân, "testemunha dos maravilhosos discursos de um livre

pensador que pertence a mil seitas":

"Na assembléia do dia da ressurreição, quando serão

perdoadas as coisas do passado, deixarão de existir os

pecados da Ka'bah, graças ao pó das igrejas cristãs."

A isso responde o Professor Max Muller:

"Os pecados do Islam são tão indignos como o pó do

Cristianismo, no dia da ressurreição, tanto os maometanos

como os cristãos verão a inanidade de suas doutrinas

religiosas.

Os homens combatem pela religião na terra;; no céu

compreenderão que só existe uma religião verdadeira- a

adoração do ESPÍRITO DE DEUS117."

Em outras palavras: "NÃO HÁ RELIGIÃO SUPERIOR À VERDADE" -

Satyat Nâsti Paro Dharmah — o lema do Mahârâjah de Benares, adotado pela

Sociedade Teosófica.

Como já se disse no Prefácio, A DOUTRINA SECRETA não representa

outra versão de Ísis sem Véu, conforme era a intenção original.

É antes uma obra

que explica a anterior e, conquanto dela independe, seu indispensável corolário.

Muita coisa exposta em Ísis sem Véu era de difícil compreensão para os teósofos

naquele tempo.

A DOUTRINA SECRETA vem trazer luz a muitos problemas que

ficaram sem solução no primeiro livro, especialmente em suas páginas iniciais.

Como o nosso objetivo ali era ocupar-nos simplesmente do que tinha

relação com os sistemas filosóficos compreendidos em nossos tempos históricos, e

com os diversos simbolismos das nações desaparecidas, não nos era possível, nos

dois volumes de Ísis, senão um rápido lance de olhos sobre o panorama do

Ocultismo.

Na presente obra daremos, com certa minúcia, a cosmogênese e a

evolução das quatro Raças que precederam a nossa quinta Raça humana,

publicando-se agora dois grandes volumes118, em que se explicam o que foi dito só

nas primeiras páginas de Ísis sem Véu e em algumas alusões esparsas aqui e ali no

contexto do livro.

Não caberia intentarmos apresentar nestes volumes o vasto

catálogo das Ciências Arcaicas, antes de nos havermos ocupado de problemas de

tanta magnitude como os da Evolução cósmica e planetária, e o do gradual

Op. cit., pág.

257.       Da primeira edição inglesa.

desenvolvimento das misteriosas humanidades e raças que precederam a nossa

Humanidade Adâmica.

Assim, a tentativa que ora se empreende para esclarecer

alguns mistérios da Filosofia Esotérica nada tem a ver, em verdade, com a obra

anterior.

Permita-se que a autora dê um exemplo, à guisa de explicação.

O volume I de Ísis começa com uma referência a um livro antigo:

"É tão antigo que, se os antiquários contemporâneos

meditassem sobre suas páginas durante, horas e dias

intermináveis, nem assim chegariam a pôr-se de acordo quanto

à natureza do material em que foi escrito.

É o único exemplar

original que atualmente existe.

O mais velho documento hebreu

referente à sabedoria oculta — o Siphrah Dzenioutha — é uma

compilação daquela vetusta obra, feita numa época em que a

mesma já era considerada uma relíquia literária.

Uma de suas

vinhetas representa a Essência Divina emanando de Adão119, à

maneira de arco luminoso que se expande em um círculo.

Depois de haver alcançado o ponto mais alto da circunferência,

a Glória inefável retrocede para voltar à terra, trazendo em seu

vértice um tipo superior de humanidade.

À medida que se

aproxima do nosso planeta, a emanação se torna cada vez

mais obscura, até que, ao tocar a terra, é já negra como a

noite."

Este nome é usado no sentido da palavra grega, αυθρωποζ.             Esse livro tão antigo é a obra original de que foram compilados os

numerosos volumes do Kiu-ti. E não somente este último e o Siphrah Dzenioutha,

senão também o Sepber Yetzirah120 - a obra atribuída pelos cabalistas hebreus ao

seu patriarca Abraão(!); o Shu-King, a bíblia primitiva da China; os volumes sagrados

do Thoth-Hermes egípcio; os Purânas da índia; o Livro dos Números caldeu; e o

próprio Pentateuco — são todos derivados daquele pequeno livro.

Reza a tradição

que foi escrito em senzar, a língua secreta dos sacerdotes, consoante as palavras

dos Seres Divinos que o ditaram aos Filhos da Luz, na Ásia Central, quando se

iniciava a nossa Quinta Raça: naqueles tempos o senzar era conhecido dos

Iniciados de todas as nações, e os antepassados dos Toltecas o entendiam tão bem

como os habitantes da perdida Atlântida; estes últimos o herdaram, por sua vez, dos

sábios da Terceira Raça, os Mânushis, que o aprenderam diretamente dos Devas da

Segunda e da Primeira Raça.

A vinheta de que se fala em Ísis relaciona-se com a

evolução destas raças e com a de nossa humanidade das Raças Quarta e Quinta,

durante a Ronda ou Manvantara de Vaivasvata.

Cada Ronda se compõe de Yugas

dos seis períodos da humanidade, quatro dos quais já se passaram em nosso Ciclo

de Vida, estando quase alcançado o ponto médio do quinto.

O desenho é simbólico,

como facilmente se percebe, e abrange o conjunto desde o princípio.

O antigo livro, depois de descrever a evolução cósmica e explicar a

origem de tudo o que existe sobre a terra, inclusive o homem físico, depois de traçar

a verdadeira história das Raças, da Primeira à Quinta (a nossa), não vai mais

adiante: termina bruscamente no início do Kâli Yuga, ou seja, há precisamente 4.

O rabino Jehoshua Ben Chananea, que morreu no ano 72 A.D., declarou abertamente que realizava "milagres" por meio do livro Sepher Yetzirah; e desafiava os céticos.

Franck, citando o Talmud babilônico, fala de dois outros taumaturgos, os rabinos Chanina e Oshoi.

(Veja-se Jerusalém Talmud, Sanhedrin, cap.

VII etc.; e Franck, Die Kabbalab, págs.

55, 56). Muitos dos ocultistas, Alquimistas e Cabalistas da Idade Média pretenderam a mesma coisa, e o último dos magos modernos, Eliphas Levi, o assegura publicamente em seus livros de magia.

anos, quando se deu a morte de Krishna, o resplandecente deus solar, que foi um

herói e grande reformador daqueles tempos.

Há, porém, outro livro.

Nenhum de seus possuidores o considera muito

antigo, por datar apenas do começo da Idade Negra, contando aproximadamente

5.000 anos.

Dentro de uns nove anos terá fim o primeiro período de cinco milênios

que deu início ao grande ciclo de Kali Yuga121, e então se cumprirá a última profecia

contida nesse livro, que é o primeiro dos Anais proféticos da Idade Negra.

Não

temos que esperar muito tempo: muitos de nós veremos a aurora do novo Dia, no

fim do qual serão acertadas várias contas e diferenças entre as raças.

O segundo

volume das profecias se acha quase terminado; o seu preparo principiou nos tempos

de Shankarâcharya, o grande sucessor de Buddha.

Deve chamar-se a atenção para outro ponto importante, que é o principal

dos que constituem a série de provas da existência de uma Sabedoria primitiva e

universal; importante pelo menos para os cabalistas cristãos e os eruditos.

Tais

doutrinas eram conhecidas, ainda que em parte, de vários Padres da Igreja.

Afirma-

se, com base rigorosamente histórica, que Orígenes, Sinésio e até mesmo Clemente

de Alexandria haviam sido iniciados nos Mistérios, antes de reunirem, sob um véu

cristão, o sistema dos Gnósticos ao Neoplatonismo da escola de Alexandria.

E mais

ainda: alguns dos ensinamentos secretos (não todos) foram conservados no

Vaticano; e desde então passaram a fazer parte integrante dos Mistérios, sob a

Nota da Edição de Adyar, 1938, pág.

65: H. P. B. escreveu no Vahan, em dezembro de 1890, pág.

2: "...Se quereis realmente ajudar a nobre causa, deveis fazê-lo agora: porque dentro de mais alguns anos os vossos esforços, assim como os nossos, serão improfícuos... Estamos em plena metade das trevas egípcias do Kâli Yuga, a Idade Negra, cujo primeiros 5.000 anos — seu primeiro ciclo sombrio — estão prestes a findar neste mundo, entre 1897 e 1898. A menos que sejamos bem sucedidos em colocar a S.T., antes dessa data, na posição segura da corrente espiritual, ver-se-á ela projetada irremediavelmente no abismo da Frustração, e as gélidas ondas do esquecimento se fecharão sobre a sua cabeça condenada.

Desse modo, terá ingloriamente perecido a única associação cujo objeto, normas e propósitos originais correspondem, sob todos os aspectos e particularidades, — se levados a cabo sem desfalecimentos — ao mais profundo e essencial pensamento de todos os grandes Adeptos Reformadores: o esplêndido sonho de uma FRATERNIDADE UNIVERSAL DO HOMEM."

forma de aditamentos que, desfigurados, a Igreja Latina introduziu no programa

cristão original.

Como exemplo, temos o dogma da Imaculada Conceição, hoje

materializado.

Explicam-se por isso as grandes perseguições movidas pela Igreja

Católica Romana ao Ocultismo, a Maçonaria e ao Misticismo heterodoxo em geral.

Os dias de Constantino foram o último ponto crítico da história, o período

da luta suprema que acabou por destruir as velhas religiões no mundo ocidental, em

favor do novo credo, edificado sobre os corpos daquelas.

Desde então, a

perspectiva de um passado remoto, de períodos pré-históricos anteriores ao Dilúvio

e ao Jardim do Éden, começou a ser interceptada por todos os meios, lícitos e

ilícitos, aos olhares indiscretos e às indagações da posteridade.

Todas as saídas

foram interditadas, e destruídos todos os documentos que podiam estar ao alcance.

Contudo, entre esses documentos, assim eliminados ou mutilados, ficou ainda um

saldo suficiente para nos autorizar a dizer que neles se continha toda a prova

exigível da existência de uma Doutrina-Máter.

Alguns fragmentos escaparam aos

cataclismos geológicos e políticos, para contar a sua história; e o que se salvou

demonstra que a Sabedoria Secreta foi em tempos a única fonte, a fonte perene e

inesgotável de que se alimentavam todas as correntes — as religiões posteriores

dos diversos povos, desde a primeira à última.

A fase que se inicia com Buddha e Pitágoras, e finda com os

Neoplatônicos e os Gnósticos, é o único foco, que a história nos depara, aonde pela

última vez convergem os cintilantes raios de luz emanados de idades remotíssimas e

não obscurecidos pelo fanatismo.

Tudo isso evidencia a necessidade, em que se viu freqüentemente a

autora, de invocar fatos recolhidos do mais vetusto passado com apoio em provas

fornecidas pelo período histórico.

Não dispunha de outros meios à sua disposição, e

corria o risco de sofrer, uma vez mais, a acusação de falta de método e de sistema.

É preciso, porém, que o público seja inteirado dos esforços de muitos

Adeptos que viveram no mundo, de poetas e escritores clássicos iniciados de todos

os tempos, para conservar nos anais da humanidade pelo menos o conhecimento da

existência de tal filosofia, se não o de seus verdadeiros princípios.

Os Iniciados de

1888 seriam realmente um mito incompreensível, se não ficasse demonstrado que

outros iniciados semelhantes existiram em todas as épocas da história.

E somente é

possível fazê-lo citando os capítulos e versículos dos livros que se referiram a esses

grandes personagens, aos quais precedeu e seguiu uma longa e interminável série

de outros Mestres nas artes ocultas, assim anteriores como posteriores ao Dilúvio.

Esse é o único meio de comprovar, com o testemunho meio histórico e meio

tradicional, que a ciência do Oculto e os poderes que o homem confere não

representam nenhuma ficção, mas fatos tão velhos quanto o próprio mundo.

Aos meus juízes, pretéritos e futuros, nada tenho, portanto, que dizer —

sejam eles críticos sinceros ou esses dervixes literários que fazem tanto alarido e

julgam uma obra pela popularidade ou impopularidade do autor, e, sem atentar no

seu conteúdo, investem contra ela, à maneira de bacilos mortíferos nos pontos mais

fracos do corpo.

Não me preocupam tampouco aqueles caluniadores de cabeça

vazia, em número reduzido felizmente, que esperam atrair para si a atenção do

público lançando o descrédito sobre todo escritor cujo nome é mais conhecido que

os deles, e assim ladram e escumam ante a própria sombra.

Estes sustentaram

durante alguns anos que as doutrinas expostas em The Theosophist, e mais tarde

no Esoteric Buddhism, haviam sido inventadas pela autora que escreve estas linhas;

e agora, variando inteiramente de tática, denunciam Ísis sem Véu e todas as demais

obras como plágios de Eliphas Lévi(!), de Paracelco(!), e, mirabile dictu, do budismo

e do bramanismo(!!!). É o mesmo que acusar Renan de haver roubado dos

Evangelhos a sua Vida de Jesus, e Max Muller os seus Livros Sagrados ao Oriente,

ou os seus Fragmentos, das filosofias dos brâmanes e de Gautama Buddha.

Mas ao

público em geral, e aos leitores de A DOUTRINA SECRETA em particular, posso

repetir o que nunca deixei de afirmar, e que agora sintetizo nas palavras de

Montaigne:

Senhores, eu fiz apenas um ramalhete de flores escolhidas:

nele nada existe de meu, a não ser o laço que as prende.

Rompei o cordão ou desatai o laço, como vos parecer melhor.

E quanto

ao ramalhete de fatos, jamais podereis destruí-lo. Podeis ignorá-lo, e nada mais.

Concluiremos com mais algumas palavras a propósito deste primeiro

volume.

Na introdução que serve de prefácio à parte de uma obra que versa

principalmente sobre Cosmogonia, pode parecer que alguns pontos focados se

encontrem fora de lugar.

Mas outras considerações, além das que foram

mencionadas, assim nos obrigaram a proceder.

É natural e inevitável que cada um

dos leitores julgue as nossas afirmações através do prisma de seus próprios

conhecimentos, experiência e foro íntimo.

E este é um fato que a autora deve

sempre levar em conta.

Daí a necessidade de referir-se freqüentemente, neste

primeiro volume, a temas que com mais propriedade dizem respeito à última parte

da obra, mas que não podiam passar em silêncio sem o risco de vermos o livro

considerado como um conto de fadas ou como ficção de algum cérebro moderno.

O Passado ajudará a conhecer o Presente, e o Presente servirá para

compreender melhor o Passado.

Os erros do dia devem ser explicados e desfeitos.

Contudo, é mais que provável, é mesmo certo que ainda desta vez o testemunho

das idades passadas e da história não deixará impressão, a não ser nos

entendimentos intuitivos, o que vale dizer — em muitos poucos.

Em todo caso, nesta

como em outras oportunidades, semelhantes, as pessoas sinceras e fiéis podem

consolar-se trazendo perante os céticos saduceus modernos o depoimento

matemático e histórico da obstinação e da estreiteza do critério humano.

Ainda

existe nos Anais da Academia de Ciências da França um estudo que ficou célebre

acerca da lei de probabilidades, deduzida pelos matemáticos em benefício dos

céticos, valendo-se de um processo algébrico, que conclui pela seguinte fórmula: —

Se duas pessoas reconhecem a evidência de um fato, e cada uma delas lhe

comunica 5/6 de certeza, este fato possuirá então 35/36 de certeza; significando que

sua probabilidade estará em relação com sua improbilidade na razão de 35 para 1.

Se me reúnem três evidências semelhantes, a certeza passa a ser de 215/216. O

testemunho de dez pessoas, cada qual com 1/2 de certeza, produzirá 1023/1024, e

assim por diante.

O ocultista pode dar-se por satisfeito com esta certeza, e de mais não

necessita.

VOLUME I                COSMOGÊNESE                                   PROÊMIO

PÁGINAS DE UNS ANAIS PRÉ-HISTÓRICOS

ANTE os OLHOS da escritora está um manuscrito arcaico, uma coleção

de folhas de palma que se tornaram impermeáveis à água e imunes à ação do fogo

e do ar, por algum processo específico desconhecido.

Vê-se na primeira página um

disco de brancura sem mácula, destacando-se sobre fundo de um negro intenso.

Na

página seguinte aparece o mesmo disco, mas com um ponto no centro.

O primeiro

(sabem todos aqueles que se dedicam a estes estudos) representa o Cosmos na

Eternidade, antes do despertar da Energia ainda em repouso, a emanação do Verbo

em sistemas posteriores.

O ponto no círculo, até então imaculado, Espaço e

Eternidade em Pralaya, indica a aurora da diferenciação.

É o ponto dentro do Ovo

do Mundo, o germe interno de onde se desenvolverá o Universo, o Todo, o Cosmos

infinito e periódico; germe que é latente e ativo, revezando-se periodicamente os

dois estados.

O único círculo é a Unidade Divina, de onde tudo procede e para onde

tudo retorna: sua circunferência, símbolo forçosamente limitado, porque limitada é a

mente humana, indica a PRESENÇA abstrata e sempre incognoscível, e seu plano,

a Alma Universal, embora os dois sejam um. Sendo branca a superfície do disco e

negro todo o fundo que o rodeia, isso mostra que esse plano é o único

conhecimento, não obstante ainda obscuro e nebuloso, que ao homem é dado

alcançar.

No plano têm origem as manifestações manvantáricas, porque é naquela

ALMA que, durante o Pralaya, dorme o Pensamento Divino122, no qual jaz oculto o

plano de todas as cosmogonias e teogonias futuras.

É a VIDA UNA, eterna, invisível - mas onipresente; sem princípio nem fim

- mas periódica em suas manifestações regulares (em cujos intervalos reina o

profundo mistério do Não-Ser); inconsciente - mas Consciência absoluta;

incompreensível - mas a única realidade existente por si mesma; em suma, "um

Caos para os sentidos, um Cosmos para a razão". Seu atributo único e absoluto,

que é Ele mesmo, o Movimento eterno e incessante, é chamado, esotericamente, o

Grande Alento123, que é o movimento perpétuo do Universo, no sentido de Espaço

sem limites e sempre presente.

O que é imóvel não pode ser Divino.

Mas, de fato e

na realidade, nada existe absolutamente imóvel na Alma Universal.

Quase cinco séculos antes de nossa era, Leucipo, preceptor de

Demócrito, sustentava que o espaço estava cheio de átomos animados de um

movimento incessante, que dava origem, no fim de certo tempo, e quando eles se

Quase não é necessário recordar ao leitor que as expressões Pensamento Divino e Mente Universal não devem ser interpretadas, nem por analogia, como um processo intelectual semelhante ao que se manifesta no homem.

O "Inconsciente", segundo Von Hartmann, chegou ao vasto plano da criação, ou melhor, da evolução, "por meio de uma sabedoria clarividente superior a toda consciência", o que, em linguagem vedantina, significa Sabedoria Absoluta.

Só aquele que compreende quanto a intuição paira muito acima dos lentos processos do raciocínio pode formar uma concepção, ainda vaga, daquela Sabedoria absoluta que transcende as idéias de Tempo e espaço.

A mente, tal qual a conhecemos, se resolve em uma série de estados de consciência, cuja duração, intensidade, complexidade e demais atributos são variáveis, baseando-se todos, em última análise, na sensação, que é sempre Maya.

A sensação, aliás, implica necessariamente limitação.

O Deus pessoal do Teísmo ortodoxo percebe, pensa e sente emoções; arrepende-se e deixa-se tomar de "grande ira". Mas a noção desses estados mentais leva claramente consigo o indispensável postulado da exterioridade dos estímulos excitantes, por nada dizer da impossibilidade de atribuir caráter imutável a um ser cujas emoções flutuam ao sabor dos acontecimentos que se passam no mundo ao qual preside.

O conceito de um Deus pessoal como imutável e infinito é, portanto, antipsicológico e, o que é pior, antifilosófico.

Platão demonstra ser um Iniciado quando em seu Cratylus diz que θεσζ é derivado do verbo θεειν, mover, correr, porque os primeiros astrônomos que observaram os movimentos dos corpos celestes chamaram os planetas θεοι, deuses.

Mais tarde a palavra deu origem a outro termo, αληθεια, "o sopro de Deus".

agregavam a um movimento rotatório, ocasionado pelas colisões mútuas e os

movimentos laterais daí resultantes.

A mesma coisa ensinaram Epicuro e Lucrécio,

acrescentando apenas ao movimento lateral dos átomos a idéia de afinidade, que é

um princípio oculto.

Desde o começo do que constitui a herança do homem, desde o primeiro

aparecimento dos arquitetos do globo em que vivemos, a Divindade não revelada foi

reconhecida e considerada sob o seu único aspecto filosófico — o Movimento

Universal, a vibração do Alento criador na Natureza.

O Ocultismo sintetiza assim a

Existência Una: "A Divindade é um fogo misterioso vivo (ou movente), e as eternas

testemunhas desta Presença invisível são a Luz, o Calor e a Umidade", tríade esta

que abrange todos os fenômenos da Natureza e lhes é a causa124. O movimento

intracósmico é eterno e incessante; o movimento cósmico, o que é visível ou objeto

da percepção, é finito e periódico.

Como eterna abstração, é o Sempre Presente;

como manifestação, é finito, na direção do futuro e na direção do passado, sendo

estes dois o Alfa e o Ômega das reconstruções sucessivas.

O Cosmos — o Númeno

— não tem nada que ver com as relações causais do mundo fenomenal.

Só em

relação à Alma intracósmica, ao Cosmos ideal no imutável Pensamento Divino é que

podemos dizer: "Jamais teve começo, nem jamais terá fim." Quanto ao seu corpo ou

organismo cósmico, ainda que se não possa dizer que haja tido uma primeira

Os nominalistas, entendendo, com Berkeley, que "é impossível... formar-se uma idéia abstrata do movimento independentemente do corpo que se move" (Principies of Human Knowledge, Introdução, 10.° parágrafo), podem perguntar: Que é o corpo pro dutor de tal movimento? Será uma substância? Então credes em um Deus pessoal? etc.

etc.

Nós daremos a resposta mais tarde, em outra parte do presente livro; por enquanto, reivindicamos nossa posição de conceptualistas, contrária às opiniões materialistas de Roscelini sobre o Realismo e o Nominalismo.

"Revelou a Ciência", pergunta Edward Clodd, um de seus mais hábeis defensores, "algo que possa contravir ou opor-se às antigas palavras em que se acha expressa a essência de todas as religiões passadas, presentes ou futuras: conduzir- se com retidão, ser compassivo e permanecer com humildade perante Deus?" Estamos de acordo, contanto que seja a palavra Deus entendida, não no sentido do antropomorfismo grosseiro que constitui ainda a estrutura de nossa teologia atual, mas como o conceito simbólico daquilo que é Vida e Movimento no Universo: conhecê-lo, na ordem física, é conhecer o tempo passado, presente e futuro, na existência das sucessões de fenômenos; e conhecê-lo, na ordem moral, é conhecer o que foi, é e será, dentro da consciência humana.

(Veja-se Science and the Emotion, Discurso pronunciado na South Place Chapel, Finsbury, Londres, 27 de dezembro de 1885).

construção ou deva ter uma última, em cada novo Manvantara pode esse organismo

ser havido como o primeiro e o último de sua espécie, pois evoluciona cada vez para

um plano mais elevado...

Dizíamos nós há alguns anos:

"A Doutrina Esotérica ensina, tal como o budismo e o

bramanismo, e também a Cabala, que a Essência una, infinita

e desconhecida existe em toda a eternidade, e que é ora ativa,

ora passiva, em sucessões alternadas, regulares e harmônicas.

Na linguagem poética de Manu, chamam-se esses estados

Dias e Noites de Brahmâ.

Este último se encontra 'desperto' ou

'adormecido'. Os Svâbhâvikas, ou filósofos da mais antiga

escola do budismo (e que ainda existe no Nepal), limitam suas

especulações ao estado ativo da 'Essência', a que dão o nome

de Svâbhâvat, e pensam que é insensato construir teorias

acerca do poder abstrato e 'incognoscível' em sua condição

passiva.

Daí o serem chamados ateus pelos teólogos cristãos e

pelos   sábios   modernos,    incapazes   uns   e   outros   de

compreender a lógica profunda daquela filosofia.

Os teólogos

não querem admitir outro Deus senão o que personifica as

potências secundárias que deram forma ao universo visível —

aquele que passou a ser o Deus antropomórfico dos cristãos, o

Jehovah masculino, branindo no meio dos trovões e dos raios.

Por sua vez, a ciência racionalista considera os budistas e os

svâbhâvikas como os "positivistas" das idades arcaicas.

Se

olharmos a filosofia destes últimos em apenas um de seus

aspectos, poderão os nossos materialistas ter razão à sua

maneira.

Sustentam os budistas que não há Criador, mas uma

infinidade de potências criadoras, que formam em seu conjunto

a substância una e eterna, cuja essência é inescrutável e, por

conseguinte, insuscetível de qualquer especulação por parte de

um verdadeiro filósofo.

Sócrates recusava-se invariavelmente a

discutir sobre o mistério universal, e nem por isso ocorreu a

ninguém acusá-lo de ateísmo, exceto aqueles que desejavam

sua morte.

Ao iniciar-se um período de atividade — diz a

Doutrina Secreta — dá-se uma expansão daquela Essência

Divina, de fora para dentro e de dentro para fora, em virtude da

lei eterna e imutável, e o universo fenomenal ou visível é o

resultado último da longa cadeia de forças cósmicas, postas

assim em movimento progressivo.

Do mesmo modo, quando

sobrevém a condição passiva, efetua-se a contração da

Essência Divina, e a obra anterior da criação se desfaz gradual

e progressivamente, o universo visível se desintegra, os seus

materiais se dispersam, e somente as "trevas" solitárias se

estendem, uma vez mais, sobre a face do "abismo". Para usar

uma metáfora dos livros secretos, que tornará ainda mais clara

a idéia, uma expiração da "essência desconhecida" produz o

mundo, e uma inspiração o faz desaparecer.

É um processo

que se observa por toda a eternidade, e o nosso atual universo

não representa senão um dos termos da série infinita — que

não teve princípio nem terá fim125."

O trecho acima será explicado, até onde for possível, na presente obra.

E

se bem que nada contenha de novo para o orientalista, tal como se acha escrito, sua

interpretação esotérica pode encerrar muita coisa que até o momento permaneceu

completamente ignorada dos eruditos ocidentais.

A primeira figura é um disco simples:                  . A segunda é um disco com

um ponto no centro,                 , um símbolo arcaico que representa a primeira

diferenciação nas manifestações periódicas da Natureza eterna, sem sexo e infinita,

"Aditi em AQUILO126" , ou o Espaço potencial no Espaço abstrato.

Na terceira fase, o

ponto se transforma em um diâmetro,                    é o símbolo da Mãe-Natureza, divina e

imaculada, no Infinito absoluto, que abrange todas as coisas.

Quando o diâmetro

horizontal se cruza com um vertical,              , o símbolo se converte na cruz do mundo.

A humanidade alcançou sua Terceira Raça-Raiz: é o signo do começo da vida

humana.

Quando a circunferência desaparece, ficando apenas a cruz, +, este signo

representa a queda do homem na matéria, começando então a Quarta Raça.

A Cruz

inscrita no círculo simboliza o Panteísmo puro; suprimido o círculo, passa a ser um

símbolo fálico.

Tinha o mesmo significado, afora outros especiais, que o Tau inscrito

Ísis sem Véu, II, págs.

264-265. Veja-se também a Seção VII, Parte I, Vol.

II da presente obra, "Os Dias e as Noites de Brahmâ". “Muitas alterações do texto original de Ísis sem Véu foram feitas por H.P.B. ao transcrevê-lo; aqui são rigorosamente mantidas.” (Nota ao pé da página 57 do Vol.

III da edição de 1897).     Rig Veda

no círculo,       , ou que o martelo de Thor, a chamada cruz Jaina, ou simplesmente

Suástica, dentro de um círculo           .

Por meio do terceiro símbolo — o círculo dividido em dois pelo diâmetro

horizontal - se dava a entender a primeira manifestação da Natureza criadora, ainda

passiva (porque feminina). A primeira percepção vaga que o homem tem da

procriação é feminina, pois o homem conhece mais de perto a mãe que o pai.

As

divindades femininas eram, por isso, mais sagradas que as masculinas.

A Natureza

é, portanto, feminina, e até certo ponto objetiva e tangível; e o Princípio espiritual

que a fecunda permanece oculto127. Acrescentando uma linha perpendicular ao

diâmetro horizontal, formou-se o Tau — T — a mais antiga forma desta letra.

- Este

foi o símbolo da Terceira Raça-Raiz até o dia de sua queda simbólica, ou seja, a

separação dos sexos por evolução natural; então a figura passou a                    , ou a vida

assexual modificada e dividida — um duplo signo ou hieróglifo.

Com as sub-raças de

nossa Quinta Raça, veio a ser em simbologia o Sacr', e em hebreu o N'cabvah, das

Raças primitivamente formadas; transformou-se depois no emblema egípcio da vida,

, e, mais tarde ainda, no signo de Vênus,                . A seguir vem a Suástica (o

martelo de Thor, ou a Cruz Hermética atual), separada completamente do círculo e,

portanto, fálica.

O símbolo esotérico do Kali Yuga é a estrela de cinco pontas

invertida, isto é, com duas pontas viradas para cima (cornos),                       - signo da

Os matemáticos ocidentais e alguns cabalistas americanos dizem que também na Cabala “o valor do nome de Jehovah é do diâmetro de um círculo”. A isto se deve acrescentar que Jehovah é o terceiro dos Sephiroth, Binah, palavra feminia, e ter-se-à a chave do mistério.

Esse nome, que é andrógino nos primeiros Capítulos do Gênesis converte-se, por meio de certas transformações cabalísticas, em masculino, cainita e fálico.

A idéia de escolher uma divindade entre os deuses pagãos, para constituí-la um deus nacional e invocá-la como “o Deus Único, o Deus Vivo”, “O Deus dos Deuses”, proclamando-se monoteísta seu culto, não pode fazer de tal divindade aquele Princípio Único, “cuja Unidade não admite multiplicidade ou mudança, nem forma, nem muito menos uma divindade priápica, como hoje está demonstrado que o é Jehovah.

feitiçaria humana - posição que todo Ocultista reconhecerá como pertencente à

"mão esquerda", e empregada na magia cerimonial128.

É de esperar que a leitura do presente livro contribua para modificar as

idéias errôneas que em geral o público tem a respeito do Panteísmo.

Erram e

cometem injustiça os que consideram ateus os Ocultistas, budistas e Adwaítas.

Se

todos não são filósofos, mostram-se pelo menos lógicos, baseando-se os seus

argumentos e objeções no mais estrito raciocínio.

Em verdade, se encararmos o

Parabrahman dos hindus como representante das divindades ocultas e inominadas

de outras nações, veremos que esse Princípio absoluto é o protótipo do qual foram

copiadas todas as demais.

Parabrahman não é "Deus", como não é um Deus.

"É o

Supremo e o não-Supremo (Paravam)129". É o Supremo como causa, e o não-

Supremo como efeito.

Parabrahman é simplesmente, como Realidade sem par, o

Cosmos que tudo contém — ou melhor, o Espaço cósmico infinito — no sentido

espiritual mais elevado, naturalmente.

Sendo Brahman (neutro), a Raiz suprema,

imutável, pura, livre, incorruptível, "a verdadeira Existência Una, Paramârthika", e o

absoluto Chit ou Chaitanya (Inteligência, Consciência), não pode conhecer, "porque

AQUILO não pode ser sujeito de cognição". Pode-se dizer que a chama é a

Essência do Fogo? A Essência é "a Vida e a Luz do Universo; o fogo e a chama

visíveis são a destruição, a morte e o mal". "O Fogo e a Chama destroem o corpo de

um Arhat; sua Essência o torna imortal130." "O conhecimento do Espírito absoluto, tal

como a refulgência do sol e o calor do fogo, não é outra coisa senão a própria

Essência absoluta", diz Sankarâchârya.

É "o Espírito do Fogo", não o Fogo em si

mesmo; portanto, "os atributos deste último, o Calor e a Chama, não são atributos

Veja-se a mui sugestiva obra The Source of Mensures, em que o autor explica o verdadeiro sentido da palavra Sacr', da qual se derivam "sagrado", "sacramento", palavras que passaram a ser sinônimas de "santidade", apesar de serem puramente fálicas.

Mândûkya, Upanishad, I, 28.     Bodhimur, Livro II.

do Espírito, e sim daquilo de que o Espírito é a causa inconsciente". Não é a

proposição anterior a verdadeira chave da filosofia dos últimos Rosacruzes?

Parabrahman, em suma, é a agregação coletiva do Cosmos em sua infinidade e

eternidade, o "AQUILO" e o "ISTO", a que se não podem aplicar agregados

distributivos131. "No princípio ISTO era Ele Mesmo, um somente132"; o grande

Sankarâchârya esclarece que "ISTO" se refere ao Universo (Jagat), e que as

palavras "no princípio" significam: antes da reprodução do Universo fenomenal.

Quando, pois, os Panteístas se fazem eco dos Upanishads, que declaram

- como também a Doutrina Secreta - que "ISTO" não pode criar, não estão negando

a existência de um Criador, ou melhor, de um agregado coletivo de criadores; o que

fazem é simplesmente recusar, com muita lógica, atribuir o ato de "criação", e

especialmente o da formação — coisas que são finitas - a um Princípio Infinito.

Para

eles, Parabrahman é uma causa passiva, porque absoluta; é o Mukta

incondicionado.

Recusam-lhe apenas a Onisciência e a Onipotência limitadas, já que

também se trata de atributos, refletidos nas percepções dos homens; e porque,

sendo Parabrahman o TODO Supremo, o Espírito e a Alma, sempre invisíveis, da

Natureza imutável e eterna, não pode ter atributos: o Absoluto exclui naturalmente a

possibilidade de toda relação com a idéia de finito ou condicionado.

E quando os

Vedantinos afirmam que só a emanação de Parabrahman possui atributos —

emanação que eles chamam ISHVARA em união com Mâyâ, e Avidyâ (Agnosticismo

ou Ciência negativa, antes que ignorância) — dificilmente se verá ateísmo em tal

Veja-se o Vedânta Sâra, do Major G. A. Jacob, e também The Aphorisms of Shândilya, tradução de Cowell, pág.

42.     Aitarey Upanishad

concepção133. Pois que é impossível existirem dois Infinitos ou dois Absolutos em

um Universo, que se supõe sem limites, como se há de conceber aquela Existência-

em-Si-Mesma criando pessoalmente? Para os sentidos e percepções dos seres

finitos, AQUILO é o Não-Ser, no sentido de que é a Seidade Una; porque neste

TODO jaz latente sua coeterna e coeva emanação ou irradição inerente, a qual, ao

se converter periodicamente em Brahmâ (a Potência masculino-feminina), se

expande no Universo manifestado.

"Nârâyana movendo-se sobre as Águas

(abstratas) do Espaço" transforma-se nas Águas de substância concreta,

impulsionadas por ele, que vem a ser agora o Verbo ou Logos manifestado.

Os brâmanes ortodoxos, aqueles que mais se opõem aos panteístas e

aos advaítas, classificando-os como ateus, têm que admitir, se Manu é alguma

autoridade na matéria, a morte de Brahmâ, o Criador, ao terminar cada ciclo desta

divindade (100 Anos Divinos, período que exigiria quinze cifras para ser expresso

em anos comuns). No entanto, nenhum de seus filósofos entende essa "morte" em

outro sentido que não o de um desaparecimento temporário do plano manifestado

da existência ou como um repouso periódico.

Os ocultistas estão, assim, de acordo com os filósofos vedantinos

advaítas a respeito desta doutrina; e demonstram a impossibilidade de aceitar-se, no

terreno filosófico, a idéia de TODO absoluto fazer surgir, pela criação, ou até mesmo

pela evolução, aquele "Ovo Áureo", no qual se diz que penetrou para se transformar

em Brahmâ, o Criador, desdobrando-se este, depois, nos Deuses e em todo o

Universo visível.

Não obstante, orientalistas cristãos imbuídos de preconceitos, e mais fanáticos do que outra coisa, pretendem provar que isto é puro ateísmo.

Como exemplo, veja-se o Vedânta Sâra do Major Jacob.

Mas toda a antigüidade repete este pensamento:       Omnis enim per se divum natura necesse est       Immortali aevo summa cum pace fruatur - segundo diz Lucrécio; um conceito puramente vedantino.

Sustentam os Ocultistas que a Unidade absoluta não pode converter-se

na Infinidade, porque o Infinito pressupõe a extensão ilimitada de "algo" e a duração

deste algo; e o Todo Uno não é — como o Espaço, sua única representação mental

e física em nosso plano de existência, a Terra — nem sujeito nem objeto de

percepção.

Se se pudesse admitir que o Todo eterno e infinito, a Unidade

onipresente, em vez de ser na Eternidade, se transformasse, por manifestações

periódicas, em um Universo múltiplo ou em uma Personalidade múltipla, tal Unidade

deixaria de ser una.

A idéia de Locke, de que "o espaço puro não é capaz nem de

resistência nem de movimento", é incorreta.

O Espaço não é nem um "vazio sem

limites" nem uma "plenitude condicionada"; mas uma e outra coisa.

E sendo, no

plano da abstração, a Divindade sempre ignota, que é um vazio só para a mente

finita134, e, no plano da percepção mayávica, o Plenum, o continente absoluto de

tudo o que é, seja manifestado ou não manifestado — é, por conseguinte, aquele

TODO ABSOLUTO.

Não há diferença alguma entre as palavras do Apóstolo cristão:

"Nele vivemos, nele nos movemos e temos o nosso ser", e o que diz o Rishi hindu:

"O Universo vive em Brahmâ, dele procede e a ele voltará"; porque Brahman

(neutro), o não manifestado, é aquele Universo in abscondito; e Brahmâ, o

manifestado, é o Logos macho-fêmea135 dos dogmas ortodoxos.

O Deus do

Apóstolo Iniciado, assim como o do Rishi, é ao mesmo tempo o Espaço Invisível e o

Visível.

Em simbolismo esotérico, o Espaço é chamado "Mãe-Pai Eterno de Sete

Os próprios nomes das divindades principais - Brahmâ e Vishnu - deveriam ter sugerido, há muito tempo, os seus significados esotéricos.

Porque a raiz de Brahman, ou Brahm, conforme se afirma, é a palavra brih, crescer ou expandir-se (veja-se a Calcutta Review, vol.

LXVI, pág.

14); e a de Vishnu é wish, penetrar, entrar na natureza da essência       Assim, Brahmâ-Vishnu é aquele Espaço infinito, do qual os Deuses, os Rishis, os Manus e tudo o que há neste Universo são simplesmente as potências (Vibhûtayah).     Veja-se em Manu o relato da separação do corpo de Brahmâ em macho e fêmea; esta última parte é a Vach fêmea, na qual ele cria Virâj.

Compare-se ainda com o esoterismo dos capítulos II, III e IV do Gênesis.

Peles"; e é constituído de sete capas, desde sua superfície não diferenciada até a

diferenciada.

"Que é que foi e será... haja ou não um Universo, existam ou não

deuses?" - pergunta o Catecismo Esotérico Senzar.

E a resposta é: "O Espaço."

O que se recusa aceitar não é o Deus Uno desconhecido, sempre

presente na Natureza, ou a Natureza in abscondito; mas o "Deus" do dogma

humano e o seu "Verbo" humanizado.

Em sua incomensurável presunção, e no

orgulho e vaidade que lhe são inerentes, criou o homem o seu Deus, pelas próprias

mãos sacrílegas e com os materiais que encontrou em sua mísera substância

cerebral, e o impôs ao gênero humano como uma revelação direta do ESPAÇO uno

e não revelado

O ocultista aceita a revelação como procedente de Seres Divinos, mas

finitos; das Vidas manifestadas, mas não da Vida Una não manifestada; daquelas

Entidades chamadas Homens Primordiais, Dhyâni-Buddhas ou Dhyân Chohans, os

Sente-se "no ar" o Ocultismo neste fim de século.

Entre muitas outras obras publicadas recentemente, há uma que recomendamos especialmente aos estudantes do Ocultismo teórico que não desejam aventurar-se muito além dos domínios do nosso plano humano em particular.

Seu título é: New Aspects of Life and Religion, por Henry Pratt, M. D. Esse livro está cheio de filosofia e de doutrinas esotéricas; algo limitada a filosofia, nos capítulos finais, pelo que nos parece um espírito de positivismo condicionado.

Apesar disso, o que refere sobre o Espaço como "Causa Primeira Desconhecida" merece ser citado: "Este algo desconhecido, assim identificado como forma corpórea primária da Unidade Simples, é invisível e impalpável" (como espaço abstrato, de acordo); "e, sendo invisível e impalpável, é portanto incognoscível.

E desta incognoscibilidade foi que nasceu o erro de supor-se que é um simples vazio, mera capacidade receptiva.

Mas, ainda quando seja considerado um vácuo absoluto, não há como deixar de admitir que o Espaço ou existe para si mesmo, infinito e eterno ou teve uma causa primeira, além, atrás e fora dele." "E, no entanto, se tal causa pudesse ser encontrada e definida, isso tão somente importaria em transferir para ele os atributos que de outro modo correspondem ao espaço; no que estaríamos apenas fazendo recuar um passo mais longe a dificuldade de origem, sem obtermos nenhum suplemento de luz quanto à causa primeira." (Op. cit., pág.

5.) É exatamente o que têm feito os que acreditam num criador antropomórfico, num Deus extracósmico, posto no lugar do Deus intracósmico.

Muitos dos conceitos do Dr. Pratt, e podemos dizer que a maioria deles, correspondem a velhas idéias e teorias cabalistas, que ele apresenta em uma forma inteiramente nova.

"Novos Aspectos" do Oculto na Natureza, certamente.

Contudo, o espaço, encarado como uma Unidade Substancial (a Fonte Divina da Vida), é, como a Causa Desconhecida e sem causa, o mais antigo postulado do Ocultismo, anterior milhares de anos ao Pater-aeter dos Gregos e Latinos.

Sucede o mesmo com "a Força e a Matéria, como potencialidades do Espaço, inseparáveis e reveladoras incógnitas do Desconhecido". Tudo isso se encontra na filosofia ariana, sob a personificação de Vishvakarman, Indra, Vishnu, etc.; estando, porém, expresso mui filosoficamente, com aspectos inusitados, na obra a que nos referimos.

Rishi-Prajâpati dos hindus, os Elohim ou Filhos de Deus dos Judeus, os Espíritos

Planetários de todas as nações, que foram considerados Deuses pelos homens.

O

Ocultista considera também Âdi-Shakti — a emanação direta de Mûlaprakriti, a

ETERNA RAIZ DE AQUILO, e o aspecto feminino da Causa Criadora, Brahmâ, em

sua forma âkâshica de Alma Universal — como Mâyâ, filosoficamente, e causa da

Mâyâ humana.

Esse modo de ver não o impede, porém, de crer em sua existência

por todo o tempo em que esta perdura, isto é, durante um Mahâmanvantara; nem de

aplicar o Âkâsha, a irradiação de Mûlaprakriti, a fins práticos137, visto que a Alma do

Mundo está relacionada com todos os fenômenos naturais, conhecidos ou

desconhecidos da ciência.

As religiões mais antigas do mundo - exotericamente, porque todas têm

uma só raiz ou fundamento esotérico — são a indostânica, a masdeísta e a egípcia.

Segue-se a dos Caldeus, produto das anteriores, hoje inteiramente perdida para o

mundo, exceto no Sabeísmo desfigurado pela interpretação atual dos arqueólogos.

Depois, passando por certo número de religiões de que falaremos mais adiante, vem

a judaica, que esotericamente acompanha a linha do magismo babilônico, como se

vê na Cabala, e exotericamente é, como no Gênesis e no Pentateuco, uma

coletânea de lendas alegóricas.

Lidos à luz do Zohar, os quatro primeiros capítulos

do Gênesis são os fragmentos de uma página altamente filosófica de cosmogonia.

Vistos em sua aparência simbólica, não passam de um conto para crianças, um

Por oposição ao universo manifestado da matéria, o termo Mûlaprakriti (de mûla, raiz, e prakriti, natureza), ou a matéria primordial não manifestada — a que os alquimistas ocidentais deram o nome de Terra de Adão — é aplicado pelos Vedantinos e Parabrahman.

A matéria é dual na metafísica religiosa, e sétupla nos ensinamentos esotéricos, como todas as coisas no Universo.

Como Mûlaprakriti, é não diferenciada e eterna; como Vyakta, vem a ser diferenciada e condicionada, segundo o Sbvetâshvatâra Upanishad, I, 8, e o Devi Ehâgavata Purâna.

O autor das quatro conferências sobre o Bhagavad Gîtâ diz, referindo-se a Mûlaprakriti: "Do ponto de vista objetivo (do Logos), Parabrahman aparece no Logos como Mûlaprakriti... Naturalmente que este Mûlaprakriti para ele é material, como todo objeto material o é para nós... Parabrahman é uma realidade incondicionada e absoluta, e Mûlaprakriti uma espécie de véu lançado sobre ele." (The Tbeosophist, vol.

VIII, pág.

304).

espinho incômodo cravado no flanco da ciência e da lógica - efeito evidente de

Carma.

Deixá-los servir de prólogo ao Cristianismo foi como que uma cruel vindita

dos rabinos, que sabiam melhor o que significava o seu Pentateuco.

Foi um protesto

mudo contra a espoliação de que eram alvo, e em verdade os judeus levam hoje

vantagem sobre os seus perseguidores tradicionais.

As crenças esotéricas de que

se trata serão explicadas à luz da Doutrina universal no curso desta exposição.

O Catecismo Oculto contém as seguintes perguntas e respostas:

Que é aquilo que sempre é? — O Espaço, o eterno Anupâdaka

(que não tem pais).

Que é aquilo que sempre foi? — O Germe na Raiz.

Que ê aquilo que sem cessar vai e vem? — É o Grande Alento.

Então há três Eternos? — Não, os três são um. — O que

sempre é, é um; o que sempre foi, é um; o que sempre está

sendo e vindo a ser, é também um; e este é o Espaço.

Explica, ó Lanu! (discípulo) — O Uno é um Círculo não

interrompido (Anel) e sem circunferência, porque não está em

parte alguma e está em toda parte; o Uno é o Plano sem limites

do Círculo, que manifesta um Diâmetro somente durante os

períodos manvantáricos; o Uno é o Ponto indivisível que não

está situado em parte alguma, e percebido em toda parte

durante aqueles períodos.

É a Vertical e a Horizontal, o Pai e a

Mãe, a cúspide e a base do Pai, as duas extremidades da Mãe,

que em realidade não chegam a parte alguma; porque o Uno é

o Anel, como também os Anéis que estão dentro desse Anel.

É

a Luz nas Trevas, e as Trevas na Luz: "o Alento que é eterno".

Atua de fora para dentro, quando está em toda parte, e

de dentro para fora, quando não está em parte alguma — ou

seja, Mâyâ138, um dos centros139. Expande-se (expiração e

inspiração). Quando se expande, a Mãe se difunde e se

dispersa; quando se contrai, a Mãe se encolhe e se concentra.

Assim se produzem os períodos de Evolução e de Dissolução,

Manvantara e Pradaya.

O Germe é indivisível e ígneo; a Raiz

(o plano do Círculo) é fria; mas durante a Evolução e o

Manvantara, o seu revestimento é frio e radiante.

O Alento

quente é o Pai que devora a progênie dos Elementos de

múltiplas faces (heterogêneos) e deixa os que têm uma só face

(homogêneos). O Alento frio é a Mãe que os concebe, que os

forma, que os faz nascer e que os recolhe novamente em seu

seio para tornar a formá-los outra vez na Aurora (do Dia de

Brahmâ, ou Manvantara).

Para melhor compreensão dos leitores em geral, devemos esclarecer que

a Ciência Oculta reconhece a existência de sete Elementos cósmicos, quatro dos

A filosofia esotérica, considerando como Mâyâ (ou a ilusão da ignorância) todas as coisas finitas, deve necessariamente olhar do mesmo modo todos os corpos e planetas intracósmicos, porque representam algo organizado e, portanto, finito.

Assim, a expressão "atua de fora para dentro, etc." se refere, na primeira parte, à aurora do Mahâmanvantara, ou grande revolução após uma das completas dissoluções periódicas de todas as formas compostas da natureza, em sua última essência ou elemento, do planeta à molécula; e, na segunda parte, ao Manvantara parcial ou local, que pode ser solar ou somente planetário.

Por "centro" aqui se entende um centro de energia ou foco cósmico.

Quando a chamada "Criação", ou formação de um planeta, é realizada por esta força que os Ocultistas designam como Vida, e a Ciência como Energia, então se dá o processo de dentro pata fora, tendo em vista que todos os átomos contêm em si mesmos a energia criadora do Alento divino.

Assim é que — enquanto, depois de um Pralaya Absoluto, quando o material preexistente consiste em só Um Elemento, e o Alento "está em toda parte", este último atua de fora para dentro — depois de um Pralaya menor, havendo tudo permanecido em statu quo (um estado de resfriamento, por assim dizer, como a Lua), ao primeiro estremecimento do Manvantara o planeta ou os planetas começam o seu retorno à vida, de dentro para fora.

quais são inteiramente físicos, e o quinto semimaterial (o Éter); este último chegará a

ser visível no ar até o final de nossa Quarta Ronda, e terá a supremacia sobre os

outros na Quinta Ronda.

Os dois restantes ainda estão absolutamente fora do

alcance da percepção humana.

Aparecerão, todavia, como pressentimentos, durante

as Raças Sexta e Sétima da Ronda atual, e se tornarão de todo conhecidos na

Sexta e na Sétima Ronda, respectivamente140. Estes sete Elementos, com seus

inumeráveis sub-elementos (que são muito mais numerosos que os admitidos pela

ciência) não passam de modificações condicionadas e aspectos do Elemento Uno e

único.

Este último não é o Éter141, nem sequer o Âkâsha, mas a fonte de ambos.

O

Quinto Elemento, que a ciência hoje tende a admitir, não é o Éter imaginado por Sir

Isaac Newton, ainda que este lhe desse tal nome associando-o provavelmente com

AEther, "o Pai-Mãe" da antigüidade.

Como disse Newton por intuição: "A Natureza

trabalha perpetuamente em ciclos, fazendo gerar fluidos de sólidos, coisas fixas de

coisas voláteis, e voláteis das fixas; coisas sutis das grosseiras, e coisas grosseiras

das sutis.

. . Assim, é possível que todas as coisas tenham sua origem no Éter142.”

É curioso observar como, no evolucionar cíclico das idéias, o pensamento antigo parece refletir-se na especulação moderna.

Cabe indagar, por exemplo, se Herbert Spencer teria lido e estudado os antigos filósofos hindus, quando escreveu certas passagens de seus First Principies (pág.

482), ou se foi por acaso uma centelha independente de percepção interna que o fez dizer semicorretamente: "Por ser, do mesmo modo que a matéria, uma quantidade indestrutível e fixa (?), deve-se supor que, ao atingir o movimento um limite — seja qual for a direção do impulso recebido (?) — à mudança por ele operada na distribuição da matéria sucederá, então e necessariamente, uma distribuição em sentido inverso.

Ao que parece, as forças universalmente coexistentes de atração e de repulsão, que, conforme vimos, atuam ritmicamente em todas as mudanças menores do Universo inteiro, atuam também ritmicamente na totalidade de suas transformações, e produzem ora um período incomensurável, durante o qual as forças de atração, predominando, originam uma concentração universal, ora um período igualmente longo em que as forças de repulsão, prevalecendo, dão lugar a uma difusão universal — ou seja, eras alternadas de evolução e dissolução."     Sejam quais sejam os pontos de vista da ciência física sobre este assunto, tem a ciência oculta ensinado, desde há séculos, que o Âkâsha (do qual o Éter é a forma mais grosseira), o quinto Princípio Cósmico universal — a que corresponde e de onde procede o Manas humano — é, cosmicamente, uma matéria radiante, fria, diatérmana e plástica, criadora em sua natureza física, correlativa nos seus aspectos e partes mais grosseiras, e imutável nos seus princípios superiores.

Na sua condição criadora, é chamada a Sub-Raiz; e em conjunção com o calor radiante "faz retornar A vida mundos mortos". Em seu aspecto superior, é a Alma do Mundo; em seu aspecto é o Destruidor.

Hypoth, 1675.

O leitor não deve perder de vista que as Estâncias apresentadas neste

livro tratam unicamente da cosmogonia de nosso sistema planetário e do que é

visível em torno dele, após um Pralaya solar.

Os ensinamentos secretos referentes à

evolução do Cosmos Universal não podem ser expostos, pois não seriam

compreendidos nem mesmo pelas inteligências mais esclarecidas de nossa época; e

parece haver poucos Iniciados, até entre os de grau mais elevado, a quem seja

permitido especular a este respeito.

Dizem, aliás, os Mestres, com toda a franqueza,

que nem sequer os Dhyâni-Chohans de alta categoria penetraram jamais os

mistérios além dos limites que separam as miríades de sistemas solares daquele a

que se chama o "Sol Central". O que se traz à luz, portanto, entende só com o nosso

Cosmos visível, depois de uma Noite de Brahmâ.

Antes de entrar o leitor no conhecimento das Estâncias do Livro de

Dzyan, que formam a base da presente obra, é absolutamente necessário que

apreenda alguns conceitos fundamentais que informam e interpenetram todo o

sistema de pensamento para o qual sua atenção vai ser dirigida.

Estas idéias

fundamentais são poucas em número, mas de sua clara percepção depende a

inteligência de tudo o que se segue; não é necessário, portanto, encarecer ao leitor

quanto importa familiar-se com elas antes de iniciar a leitura da obra.

A Doutrina Secreta estabelece três proposições fundamentais:

I. Um PRINCÍPIO Onipresente, Sem Limites e Imutável, sobre o qual toda

especulação é impossível, porque transcende o poder da concepção humana e

porque toda expressão ou comparação da mente humana não poderia senão

diminuí-lo. Está além do horizonte e do alcance do pensamento, ou, segundo as

palavras do Mândûkya, é "inconcebível e inefável".

Para que possa compreender mais claramente estas idéias, deve o leitor

adotar como ponto de partida o seguinte postulado: Há uma Realidade Absoluta,

anterior a tudo o que é manifestado ou condicionado.

Esta Causa Infinita e Eterna,

vagamente formulada no "Inconsciente" e no "Incognoscível" da filosofia européia

em voga, é a Raiz sem Raiz de "tudo quanto foi, é e será". É, naturalmente,

desprovida de todo e qualquer atributo, e permanece essencialmente sem nenhuma

relação com o Ser manifestado e finito.

É a "Asseidade", mais propriamente que o

Ser, Sat em sânscrito, e cita fora do alcance de todo pensamento ou especulação.

Esta Asseidade é simbolizada na Doutrina Secreta sob dois aspectos.

De

um lado, o Espaço Abstrato absoluto, representando a subjetividade pura, aquilo que

nenhuma mente humana pode excluir de qualquer conceito, nem conceber como

existente em si mesmo.

De outro lado, o Movimento Abstrato absoluto, que

representa a Consciência Incondicionada.

Os próprios pensadores ocidentais têm

afirmado que a consciência, separada da transformação, é inconcebível para nós, e

que o movimento é o melhor símbolo da transformação e sua característica

essencial.

Este último aspecto da Realidade Una é ainda simbolizado pela

expressão "o Grande Sopro", e o símbolo é bastante sugestivo para necessitar de

outra explicação.

Assim, o primeiro axioma fundamental da Doutrina Secreta é

aquele UM ABSOLUTO metafísico — a ASSEIDADE, representada na Trindade

teológica pela inteligência finita.

Alguns esclarecimentos adicionais podem, contudo, ser úteis ao

estudante.

Herbert Spencer ultimamente modificou seu Agnosticismo, ao ponto de

afirmar que a natureza da "Causa Primeira143", que o Ocultista faz derivar, com mais

"Primeira" é a palavra que pressupõe necessariamente algo "que foi o primeiro a aparecer", "o primeiro no tempo, no espaço e na categoria"; e, portanto, algo finito e condicionado.

Assim, o

lógica, da Causa sem Causa, o "Eterno", o "Incognoscível", pode ser essencialmente

a mesma que a da consciência que reside dentro de nós; em uma palavra, que a

Realidade impessoal que interpenetra o Cosmos é o puro número do pensamento.

Este passo à frente o leva bem perto do princípio esotérico e vedantino144.

Parabrahman, a Realidade Una, o Absoluto, é o campo da Consciência

Absoluta, vale dizer, daquela Essência que está fora de toda relação com a

existência condicionada, e cuja existência consciente é um símbolo condicionado.

Mas, logo que saímos, em pensamento, desta Negação Absoluta (para nós), surge o

dualismo no contraste entre o Espírito (ou Consciência) e a Matéria, entre o sujeito e

o, objeto.

O Espírito (ou Consciência) e a Matéria devem ser, no entanto,

considerados não como realidades; independentes, mas como duas facetas ou

aspectos do Absoluto (Parabrahman), que constituem a base do ser condicionado,

seja subjetivo ou objetivo.

Se consideramos essa tríade metafísica como a raiz de que procede toda

manifestação, o Grande Sopro assume o caráter de Ideação pré-cósmica.

É a fons

et origo da força e de toda consciência individual; e de onde promana a inteligência

que preside o vasto plano da Evolução cósmica.

Por outra parte, a Substância-Raiz

pré-cósmica (Mûlaprakriti) é o aspecto do Absoluto que serve de substratum a todos

os planos objetivos da natureza.

Assim como a Ideação Pré-Cósmica é a raiz da toda consciência

individual, assim também a Substância Pré-Cósmica é o substratum da matéria nos

seus diversos graus de manifestação.

Ocultismo oriental chama ao Todo Absoluto “a Causa Una e sem Causa, a Raiz sem Raiz", e aplica o nome "Primeira Causa" ao Logos, no sentido que Platão dá a este vocábulo.

Daí resulta que o contraste desses dois aspectos do Absoluto é essencial

pura a existência do Universo manifestado.

Isolada da Substância cósmica, a

Ideação Cósmica não poderia manifestar-se como consciência individual; pois só por

meio de um veículo (upâdhi) de matéria é que a consciência emerge como "Eu sou

Eu", sendo necessária uma base física para concentrar um Raio da Mente Universal

a certo grau de complexidade.

E por sua vez, separada da Ideação Cósmica, a

Substância Cósmica não passaria de uma abstração vazia, e nenhuma manifestação

de consciência poderia surgir.

O Universo Manifestado acha-se, portanto, informado pela dualidade, que

vem a ser a essência mesma de sua Existência como manifestação.

Mas, assim

como os pólos opostos de Sujeito e Objeto, de Espírito e Matéria, não são mais que

aspectos da Unidade Una, que é a sua síntese, assim também no Universo

Manifestado existe "algo" que une o Espírito à Matéria, Sujeito ao Objeto.

Esse "algo", que a especulação ocidental presentemente desconhece, é

chamado Fohat pelos Ocultistas.

É a "ponte" por meio da qual as idéias existentes

no Pensamento Divino passam a imprimir-se sobre a Substância Cósmica, como

Leis da Natureza.

Fohat é, assim, a energia dinâmica da Ideação Cósmica; ou então,

encarado sob outro aspecto, e o "médium" inteligente, o poder diretor de toda

manifestação, o Pensamento Divino transmitido e manifestado por intermédio dos

Dhyân Chohans145, os Arquitetos Mundo visível.

Assim, do Espírito ou Ideação

Cósmica provém a nossa Consciência; da Substância Cósmica, os diversos veículos

em que esta Consciência se individualiza e chega ao Eu, à consciência de si mesma

ou reflexiva; enquanto Fohat, em suas manifestações várias, é o elo misterioso une

o Espírito à Matéria, o princípio animador que eletriza cada átomo dar-lhe vida.

Os Arcanjos, Serafins etc., da Teologia cristã.

O seguinte resumo dará ao leitor uma noção mais clara:

1. O ABSOLUTO: o Parabrahman dos Vedantinos ou a Realidade Una, Sat, que

é, como disse Hegel, ao mesmo tempo Absoluto Ser e Não-Ser.

2. O Primeiro Logos: o impessoal e, em filosofia, não manifestado; o Logos

precursor do Manifestado.

É a "Causa Primeira", o "Inconsciente" dos

panteístas europeus.

3. O Segundo Logos: Espírito-Matéria, Vida; o "Espírito do Universo”, Purusha e

Prakriti.

4. O Terceiro Logos: A Ideação Cósmica; Mahat ou Inteligência, a alma

Universal do Mundo; o Númeno Cósmico da Matéria, a base das Operações

inteligentes da Natureza; também chamado Mahâ-Buddhi.

A REALIDADE UNA; seus aspectos duais no Universo condicionado146.

A Doutrina Secreta afirma, além disso:

II.      A Eternidade do Universo in toto, como plano sem limites; periodicamente

"cenário de Universos inumeráveis, manifestando-se e desaparecendo

constantemente", chamados "as Estrelas que se manifestam"                       e "as

Centelhas da Eternidade". "A Eternidade do Peregrino147" é como um abrir

Estes três Logos Subjetivos não devem ser confundidos com os Três Logos Objetivos da Manifestação quando o Terceiro Logos Subjetivo se converte no Primeiro Logos Objetivo Criador, a Mente Universal, Mahat, impregnando todas as coisas com os atributos da Inteligência.

Veja-se A Study in Consciousness, de Annie Besant, seção "Origins". (Nota da Edição de Adyar, Vol.

I, pág.

82; 1938.)     "Peregrino" é o nome dado à nossa Mônada (os Dois em Um) durante seu ciclo de encarnações.

É o único Princípio imortal e eterno que existe em nós, sendo uma parcela indivisível do todo integral, o Espírito Universal, de que emana e em que é absorvida no final do ciclo.

Quando se diz que emana do Espírito Uno, usa-se de uma expressão tosca e incorreta, por falta de palavras adequadas.

Os Vedantinos a chamam Sutrâtmâ (Alma-Fio); suas explicações, no entanto, diferem algo das dos

e fechar de olhos da Existência-por-si-Mesma", segundo o Livro de Dzyan.

"O aparecimento e o desaparecimento de Mundos são como o fluxo e o

refluxo periódico das marés."

Este segundo asserto da Doutrina Secreta é a universalidade absoluta

daquela lei de periodicidade, de fluxo e refluxo, de crescimento e decadência, que a

ciência física tem observado e registrado em todos os departamentos da Natureza.

Alternativas tais como Dia e Noite, Vida e Morte, Sono e Vigília são fatos tão

comuns, tão perfeitamente universais e sem exceção, que será fácil compreender

por que divisamos nelas uma das leis absolutamente fundamentais do Universo.

Ensina também a Doutrina Secreta:

III.

A identidade fundamental de todas as Almas com a Alma Suprema

Universal, sendo esta última um aspecto da Raiz Desconhecida; e a

peregrinação obrigatória para todas as Almas, centelhas daquela Alma

Suprema, através do Ciclo de Encarnação, ou de Necessidade, durante

todo esse período.

Em outras palavras: nenhum Buddhi puramente

espiritual (Alma Divina) pode ter uma existência consciente independente,

antes que a centelha, emanada da Essência pura do Sexto Princípio

Universal — ou seja, da ALMA SUPREMA - haja passado por todas as

formas elementais pertencentes ao mundo fenomenal do Manvantara, e

adquirido a individualidade, primeiro por impulso natural e depois à custa

dos próprios esforços, conscientemente dirigidos e regulados pelo Carma,

escalando assim todos os graus de inteligência, desde o Manas inferior

Ocultistas.

Cabe aos Vedantinos explicar a diferença.

Veja-se o Vol II, Parte II, "Dias e Noites de Brahmâ".

até o Manas superior; desde o mineral e a planta ao Arcanjo mais sublime

(Dhyâni-Buddha).        A Doutrina axial da Filosofia Esotérica não admite a

outorga de privilégios nem de dons especiais ao homem, salvo aqueles

que forem conquistados pelo próprio Ego com o seu esforço e mérito

pessoal, ao longo de uma série de metempsicoses e reencarnações.

Por

isso dizem os hindus que o Universo é Brahman e Brahmâ; porque

Brahman está em todo átomo do Universo, sendo os seis princípios da

natureza a expressão ou os aspectos vários e diferenciados do Sétimo e

Uno, a Realidade única do Universo, seja cósmico ou microcósmico; e

ainda porque as permutações psíquicas, espirituais e físicas do Sexto

(Brahmâ, o veículo de Brahman), no plano da manifestação e da forma,

são consideradas, por antífrase metafísica, ilusórias e mayávicas.

Embora

a raiz de todos os átomos, individualmente, e de todas as formas,

coletivamente, seja o Sétimo Princípio, ou a Realidade Una, em sua

aparência manifestada, fenomenal e temporária tudo isso não é senão

uma ilusão efêmera dos nossos sentidos148.

Em seu modo de ser absoluto, o Princípio Uno, sob seus dois aspectos,

Parabrahman e Mûlaprakriti, não tem sexo, é incondicionado e eterno.

Sua

emanação manvantárica, periódica, ou irradiação primária, é também una,

andrógina, e finita em seu aspecto fenomenal.

Quando, por sua vez, a emanação

irradia, todos os seus raios são igualmente andróginos, convertendo-se nos

princípios masculino e feminino em seus aspectos inferiores.

Depois de um Pralaya,

quer seja o Grande Pralaya ou o Pralaya Menor — deixando este último os mundos

Veja-se o Vol.

II, Parte III, "Deuses, Mônadas e Átomos" (Seção XIV).

em statu quo149 — o primeiro a despertar para a vida ativa é o plástico Âkâsha, o

Pai-Mãe, o Espírito e a Alma do Éter, ou seja, o Plano do Círculo.

O Espaço é

chamado a Mãe, antes de sua atividade cósmica, e Pai-Mãe no primeiro estágio do

seu despertar.

Na Cabala ele é também Pai-Mãe-Filho.

Mas, enquanto na doutrina

oriental constituem estes o Sétimo Princípio do Universo Manifestado, ou Âtmâ-

Buddhi-Manas (Espírito-Alma-Inteligência), ramificando-se e dividindo-se a Tríade

em sete Princípios Cósmicos e em sete Princípios Humanos, na Cabala ocidental

dos místicos cristãos correspondem à Tríade ou Trindade, e, entre os seus

ocultistas, ao Jehovah macho-fêmea, Jah-Havah.

Nisso consiste toda a diferença

entre as Trindades esotérica e cristã.

Os místicos e os filósofos, os panteístas orientais e ocidentais, sintetizam

sua Tríade pré-genética na abstração divina pura.

Os ortodoxos a antropomorfizam.

Hiranyagarbha, Hari e Sansara150 — as três Hipóstases do Espírito que se manifesta

(o "Espírito do Espírito Supremo", título sob o qual Prithivi, a Terra, saúda a Vishnu

em seu primeiro Avatar) — são as qualidades abstratas e puramente metafísicas da

Formação, da Conservação e da Destruição; são também os três Avasthâs

(Hipóstases) divinos daquele que "não parece com as coisas criadas", Achyuta,

nome de Vishnu.

Os cristãos ortodoxos cindem a sua Divindade pessoal criadora em

três pessoas distintas e não admitem Divindade superior.

Esta última, em Ocultismo,

é o Triângulo abstrato; para o ortodoxo, é o cubo perfeito.

O deus criador, ou antes a

coletividade dos deuses criadores, é considerado pelo filósofo oriental como

Bhrântidarshanatah, "falsas aparências", algo "concebido, em razão de aparências

Não são os organismos físicos, e muito menos os seus princípios psíquicos, o que permanece em Statu quo durante os grandes Pralayas cósmicos ou mesmo solares, e sim unicamente suas "fotografias". âkâshicas ou astrais.

Mas, durante os Pralayas Menores, os planetas, uma vez envolvidos pela "Noite", continuam intatos, apesar de mortos, à maneira de um grande animal que, preso e sepultado nos gelos polares, assim se conserva durante largos períodos.

Isto é: Brahma, Vishnu e Shiva.

enganosas, como uma forma material", e que se explica como proveniente do

conceito ilusório da Alma humana pessoal e egoísta (o Quinto Princípio inferior).

Tudo isso foi expresso de maneira bastante feliz na tradução corrigida que aparece

nas notas de Fitzedward Hall sobre a versão de Wilson do Vishnu Purâna.

"Brahma,

em sua totalidade, possui essencialmente o aspecto de Prakriti, tanto evolucionado

como não evolucionado (Mûlaprakriti), e também o aspecto do Espírito e o do

Tempo.

O Espírito, ó tu, duas vezes nascido!, é aspecto principal do Brahma

Supremo151. O aspecto seguinte é duplo: Prakriti evolucionado e não evolucionado;

e o último é o Tempo." Cronos, na teogonia grega, também é representado como um

deus ou agente engendrado.

No simbolismo sagrado, aquele período do despertar do Universo figura

como um círculo perfeito com o Ponto (Raiz) no centro.

Era um signo universal;

também o encontramos na Cabala.

Entretanto, a Cabala ocidental, atualmente nas

mãos dos místicos cristãos, o ignora por completo, apesar de achar-se claramente

assinalado no Zobar.

Estes sectários começam pelo fim: tomam como símbolo do

Cronos pré-genético a cruz inscrita no círculo                  , que denominam "a União da

Rosa e da Cruz", o grande mistério da geração oculta, de onde provém o nome

Rosa-cruz (Rosa Cruz)! É o que se pode depreender de um dos mais importantes e

mais bem conhecidos de seus símbolos, o qual até hoje não foi jamais

compreendido, inclusive por parte dos místicos modernos: o do Pelicano que

Spencer – apesar de, tal como Schopenhauer e Von Hartmann, exprimir somente um aspecto dos antigos filósofos esotéricos, e, portanto, conduzir os seus leitores à lúgubre região da desesperança agnosticista – assim formula reverentemente o grande mistério: “O que permanece imutável em quantidade, embora sempre cambiante nas formas, sob estas aparências sensíveis que o Universo nos apresenta, é um poder desconhecido e incognoscível, que nos vemos obrigados a reconhecer como ilimitado no Espaço e sem começo nem fim no Tempo”. Só a Teologia pretensiosa se atreve a medir o Infinito e a descerrar o véu que cobre o Insondável e o Incognoscível; jamais o faz a Ciência, nem a Filosofia.

dilacera seu próprio peito para alimentar os sete filhos — em verdade, um credo dos

Irmãos Rosa-cruzes diretamente originado da Doutrina Secreta oriental.

Brahman (neutro) é chamado Kâlahamsa, que significa, conforme

explicação dos orientalistas do Ocidente, o Cisne Eterno (ou Ganso); e assim

também Brahma, o Criador.

Com isto se comete um grande erro.

É a Brahman

(neutro) que se deve aplicar o nome de Hamsa-Vâhana (o que usa o Cisne como

veículo), e não a Brahma, o Criador.

Este último é o verdadeiro Kâlahamsa; ao

passo que Brahman (neutro) é Hamsa e A-Hamsa, como será esclarecido nos

Comentários.

Tenha-se presente que os termos Brahma e Parabrahman são aqui

empregados, não porque pertençam à nossa nomenclatura esotérica, mas

simplesmente por serem mais familiares aos estudantes ocidentais.

Ambos são

perfeitamente equipolentes aos nossos termos de uma, três e sete vogais, que

correspondem ao TODO UNO e ao Uno "Todo em Tudo".

Tais são os conceitos fundamentais em que assenta a Doutrina Secreta.

Não é esta a ocasião própria para fazer-lhes a defesa ou dar provas de sua razão de

ser, nem podemos tampouco deter-nos em demonstrar que em verdade se acham

eles no fundo de todos os sistemas de filosofia digno deste nome, embora, por

vezes, sob enganosas aparências.

Quando o leitor os houver compreendido claramente, e percebido a luz

que espargem sobre todos os problemas da vida, mais nenhuma identificação se

tornará necessária; pois a verdade lhe saltará aos olhos, tão evidente como a luz do

Sol.

Passo, assim, ao assunto de que tratam as Estâncias apresentadas neste

volume, fazendo-as preceder de um pequeno esforço, a fim de facilitar o trabalho do

estudante e dar-lhe, em poucas palavras, ama visão panorâmica dos conceitos que

ali se expõem.

A história da Evolução Cósmica, tal como figura nas Estâncias, é, em

certo sentido, a fórmula algébrica abstrata da mesma evolução.

Não deve o leitor,

por isso, esperar que nelas se encontre a explicação de todas as fases e

transformações verificadas desde os primeiros passos da Evolução Universal até o

nosso estado atual.

Dar semelhante explicação seria tão impossível ao escritor

quanto incompreensível àqueles que se não acham ainda em condições de penetrar,

sequer, a natureza do plano de existência ao em que tem, por enquanto, confinada a

sua consciência.

As Estâncias oferecem uma fórmula abstrata que se aplica mutatis

mutandis a toda evolução: à de nossa diminuta Terra; à da Cadeia Planetária a que

pertence a Terra; à do Universo Solar no qual se integra esta Cadeia; e assim

sucessivamente, em escala ascendente, até onde a nossa mente se vê compelida a

deter-se, exausta em sua capacidade.

As sete Estâncias expostas neste volume representam os sete termos

dessa fórmula abstrata.

Referem e descrevem os sete grandes estádios do processo

evolutivo, que os Purânas mencionam como as "sete criações" e a Bíblia como os

"dias da Criação”.

A Estância l descreve o estado do TODO UNO durante o Pralaya, antes

do primeiro movimento da Manifestação em seu despertar.

Basta refletir um momento para compreender que tal estado não pode ser

expresso senão simbolicamente, pois é impossível defini-lo. E até mesmo o símbolo

tem que ser negativo; porque, em se tratando do estado do Absoluto per se, não

pode comportar nenhum dos atributos que nos servem para descrever os objetos em

termos positivos.

Daí a razão por que tal estado só pode ser sugerido por meio da

negação de todos aqueles atributos mais abstratos, que os homens mais

pressentem do que propriamente percebem, como o limite máximo a que pode

chegar o seu poder de concepção.

A Estância II refere-se a um estado que para a inteligência ocidental é

quase tão idêntico ao descrito na primeira Estância que a explanação das diferenças

exigiria, por si só, um tratado.

Convém portanto, deixar à intuição e às faculdades

superiores do leitor o assimilar, até onde seja possível, o significado das frases

alegóricas que ali se encontram.

Em verdade, deve-se ter presente que estas

Estâncias falam mais às faculdades íntimas que à inteligência ordinária do homem

físico.

A Estância III descreve o despertar do Universo para a vida após o

Pralaya.

Mostra o emergir das Mônadas do seu estado de absorção no UNO; é o

primeiro e o mais alto estádio na formação dos Mundos — podendo aplicar-se o

termo Mônada tanto aos vastos Sistemas Solares como ao átomo mais íntimo.

A Estância IV expõe a diferenciação do "Germe" do Universo na

Hierarquia Serenaria de Poderes Divinos conscientes, que são as manifestações

ativas da Suprema Energia Una.

São eles os construtores e modeladores, numa

palavra os criadores de todo o Universo manifestado, no único sentido em que se faz

inteligível o nome de "Criador"; dão forma ao Universo e o dirigem; são os Seres

inteligentes que ajustam e controlam a evolução, encarnando em si mesmos aquelas

manifestações da Lei Una que conhecemos como "Leis da Natureza".

Genericamente são chamados Dhyân Chohans, embora cada um dos

diversos grupos tenham sua denominação própria na Doutrina Secreta.

Na mitologia hindu essa fase da evolução é conhecida como a "Criação

dos Deuses".

A Estância V apresenta o processo da formação do mundo.

Em primeiro

lugar, Matéria Cósmica difusa; depois, o "Torvelinho de Fogo", primeiro estádio da

formação de uma nebulosa.

A nebulosa se condensa e, depois de passar por várias

transformações, forma um Universo Solar, uma Cadeia Planetária ou um simples

Planeta, conforme o caso.

A Estância VI indica as fases subseqüentes da formação de um "Mundo",

descrevendo a evolução deste Mundo até o seu quarto grande período, que

corresponde àquele em que vivemos presentemente.

A Estância VII dá prosseguimento à história, e traça a descida da vida até

o aparecimento do homem; e assim termina o livro primeiro de A DOUTRINA

SECRETA.

O desenvolvimento do "Homem", desde que surgiu sobre a Terra, na

presente Ronda, até o estado em que hoje se encontra, constitui a matéria do livro

segundo.

As Estâncias, que formam a tese de todas as seções, estão reproduzidas

mediante sua tradução em linguagem moderna: apresentá-las no estilo arcaico do

original, com suas expressões e termos enigmáticos, seria complicar e dificultar o

assunto de maneira mais que inútil.

Fazemos intercalar excertos das traduções

chinesa, tibetana e sânscrita do texto original em Senzar dos Comentários e Glosas

acrescentados ao Livro de Dzyan; sendo esta a primeira vez que essas traduções

são vertidas em uma língua européia.

É quase desnecessário dizer que tão somente

parte das sete Estâncias são aqui mencionadas; a publicação completa não as

tornaria compreensíveis para ninguém, à exceção de alguns Ocultistas mais

graduados.

A própria autora, ou melhor, a humilde redatora destas linhas, não

entende mais que os profanos aqueles trechos suprimidos.

Para facilitar a leitura do livro e reduzir ao mínimo as notas ao pé das

páginas, considerou-se útil dispor textos e comentários uns após outros,

empregando, onde quer que se fizesse necessário, nomes sânscritos e tibetanos de

preferência aos originais — o que só trará benefício à compreensão, tanto mais que

esses nomes são todos aceitos como sinônimos, e os últimos são usados apenas

entre os Mestres e seus Cheias (discípulos).

Assim é que, se houvéssemos de traduzir o primeiro versículo

empregando unicamente os substantivos e expressões técnicas que constam em

uma das versões tibetana e senzar, teríamos literalmente o seguinte:

Tho-ag em Zhi-gyu dormiu sete Khorlo.

Zodmanas zhiba.

Todo

Nyug seio.

Konch-hog não; Thyan-Kam não, Lha-Chohan não;

Tenbrel Chugnyi não; Dharmakâya cessou; Tgenchang não

havia chegado a ser; Barnang e Sza em Ngovonyidj; somente

Tho-og    Yinsin   na     noite   de   Sun-chan   e   Yong-grub

(Paraniskpanna) etc., etc.

Tudo isso soaria como um verdadeiro Abracadabra.

Como esta obra foi escrita para esclarecimento dos estudiosos de

Ocultismo, e não para os filólogos, evitaremos o uso de termos estrangeiros, sempre

que possível.

Ficam somente as palavras intraduzíveis, que não se compreendam

sem uma explicação; mas todas elas constarão em sua forma sânscrita.

Não é

preciso recordar ao leitor que tais palavras são, em quase todos os casos, o

resultado da última evolução daquela língua, e pertencem à Quinta Raça-Raiz.

O

sânscrito, tal como hoje se conhece, não era falado pelos Atlantes, e a maior parte

dos termos filosóficos empregados nos sistemas da índia posteriores ao período do

Mahâbhârata não figuram nos Vedas, nem nas Estâncias originais — e sim os

respectivos equivalentes.

O leitor não teósofo pode, se bem lhe parece, ver em tudo o que se segue

não mais que um conto de fadas; ou, quando muito, uma especulação de

sonhadores, destituída de provas; ou, ainda, uma nova hipótese, entre tantas outras,

científicas, passadas, presentes e futuras, algumas já condenadas outras em

posição de simples expectativa.

Esta hipótese, em todo caso, não é menos científica

do que muitas das teorias a que se empresta semelhante caráter; mas é,

certamente, mais filosófica e mais provável.

Dado o grande número de comentários e explicações necessárias, as

notas e referências são consignadas pela forma usual, ao pé das páginas; e

assinaladas com letras as sentenças que devem ser comentadas.

Alguns temas

adicionais constam dos capítulos que tratam do simbolismo, juntamente com

informações não raro mais desenvolvidas que as dos Comentários.